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Por uma sociedade sem manicômios

TRUPE

“Depois de todos esses meses, essa é a primeira vez que venho a um lugar como este de verdade, sem tomar remédio, sem me preocupar, sem me sentir insegura e sorrindo livremente e espontaneamente. Muito obrigada!”. O depoimento é de Rose Pereira, que faz tratamento há dois anos no Centro de Atenção Psicossocial (CAP) da Amazônia, no bairro da Marambaia, sobre uma das oficinas promovidas pelo grupo República do Cuidado na Praça da República.

No decorrer do mês de maio, o grupo de saúde e teatro promoveu diversos encontros abertos no Teatro Waldemar Henrique voltados para trabalhadores e usuários da rede de saúde mental de Belém. O Projeto surgiu com a finalidade de promover atividades com vivências em Teatro do Oprimido, Música e Palhaçaria, Cirandas e Rodas de Cuidado, além de práticas tradicionais e populares de saúde, que culminam no Cortejo Cultural do dia 24 de maio em comemoração ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial.

Larissa Medeiros é professora de Psicologia da Universidade da Amazônia (Unama), e faz parte do Coletivo Embalando a Rede e do Movimento da Luta Antimanicomial. De acordo com ela, quem já vestiu a camisa da Luta Antimanicomial e já participou das marchas que ocorreram em anos anteriores vai se surpreender com o Cortejo Cultural preparado para este ano. “A parte cultural foi modificada e teremos uma banda de fanfarra. Graças ao apoio da Trupe da Procura, que promoveu as oficinas de mobilização, as pessoas foram preparadas para brincar na rua”, adianta. Atenção ainda para a mudança de trajeto! Em vez da tradicional concentração na “Escadinha”, próxima à Estação das Docas, os participantes devem se encontrar às 9h na Praça da Republica, de onde seguirão para a Praça Batista Campos.

Um dos coordenadores da República do Cuidado é o palhaço e médico de rua Vitor Nina. Para quem nunca ouviu falar, a especialidade “médico de rua” existe sim e trabalha no cuidado do “Povo em Situação de Rua” por meio do “Consultório na Rua”, política nacional promovida em Belém pela Secretaria Municipal de Saúde (Sesma). Nina também é um dos coordenadores artecientíficos da Trupe da Procura, projeto do Núcleo de Artes e Imanências em Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará (NARIS). Para ele, o cortejo é um exercício de liberdade. “A República do Cuidado é oficina, espetáculo e manifesto: uma experiência democrática de expressão e de convívio afetuoso para produzir cidadania e, em última instância, saúde. São rodas em que todas e todos podem entrar e expressar sua singularidade através do teatro, da educação popular, da cultura tradicional, dos saberes ancestrais que todos e cada um têm imanentes em si”, declara.

ADESÃO: basta ser solidário

A causa chamou a atenção de profissionais de outros segmentos que não o das ciências biológicas. É o caso da atriz Carol Magno. Para ela, vale a pena abraçar a causa porque ela é completamente contra os manicômios. “O manicômio é uma espécie de prisão, só que maquiada. A sociedade coloca como se fosse uma casa de saúde, mas, na verdade, a gente sabe que não é bem assim. Eu acho que toda e qualquer pessoa merece carinho, merece cuidado, merece ficar com a família, não merece ser excluída e o manicômio provoca exatamente isso: a exclusão”, argumenta.

DEPOIMENTO: O poder do afeto

Depois de passar por experiências extremamente traumáticas, Rose Pereira ficou afastada do convívio social por mais de um ano. Recentemente, no entanto, aconselhada por uma médica, decidiu buscar novamente a interação com as pessoas. “Ela me disse que eu era muito comunicativa e que eu estava piorando porque eu estava em casa, presa, sem me comunicar com ninguém”, conta. Depois que decidiu “botar a cara no sol”, Rose garante que sentiu “uma melhora incrível!”. Sobre sua participação em uma das oficinas de preparação para o Cortejo Cultural República do Cuidado na Luta Antimanicomial, ela declara: “Um lugar como esse não é apenas um teatro corporal, não é você gritar, falar ou fazer careta. Ele é muito mais que isso. Ele lhe dá perspectiva, lhe dá vontade de querer recomeçar e até voltar a fazer o que você fazia antes”.

REPÚBLICA DO CUIDADO: O que é isso?

O Projeto República do Cuidado consiste em atividades facilitadas pelo grupo de teatro e saúde Trupe da Procura, sendo uma das atividades oferecidas pelo coletivo Embalando a Rede, que congrega serviços de saúde, artistas, grupos e movimentos sociais relacionados à Saúde em geral e, mais especificamente, à saúde mental, tais como alguns CAPS e o Movimento de Luta Antimanicomial (MLA).

Texto e foto: Bianca Leão, assessora de encrencas da Trupe da Pro-Cura.

NINA

Vitor Nina

“Gostaria novamente de convidar todas e todos para participar de nossa roda. Ensina Vitor Pordeus, um de nossos mestres inspiradores do trabalho: Há um saber em todo ser, e todos somos atores, cientistas, loucos e curandeiros, basta praticarmos as paixões alegres! Venham para a nossa roda: ‘se você não faz teatro, qualquer teatro faz você’. O Afeto é o centro do Universo! Evoé!”. Vitor Nina, palhaço e médico de rua.

Larissa Medeiros“Essa manifestação é uma manifestação da liberdade e, por isso, todo mundo está convidado a participar conosco. Não importa se a pessoa é da área da saúde mental, é um momento de brincar celebrar a vida e a liberdade”. Larissa Medeiros, professora de Psicologia da Universidade da Amazônia (Unama), membro do Coletivo Embalando a Rede e do Movimento da Luta Antimanicomial.

CONFIRA ALGUMAS FOTOS DA REPÚBLICA DO CUIDADO AQUI:

https://www.facebook.com/caroline.souza.54379/media_set?set=a.10204378228123832.1073741880.1474187571&type=1&pnref=story

V FAS-CE PAIAÇO – Na Natureza do Cuidado

https://vimeo.com/112879129Na Natureza do Cuidado

Resgatar a natureza do cuidado!

O V Fas-ce Paiaço é o ciclo de oficinas e vivências que será realizado pela Trupe da Procura e o Projeto Viramundo nos dia 13 e 14 de Dezembro de 2014 no Jalam das Águas em Benevides/PA. Serão dois dias de imersão no belo sítio onde aconteceram oficinas de Teatro do Oprimido, Teatro de Rua, Palhaçaria, Educação Popular em Saúde além de rodas de conversa sobre temas envolvendo novas perspectivas nas práticas e estudos em saúde. Para partilhar dessa experiência convidaremos 20 cidadãos interessados nos diálogos de arte e saúde dentre profissionais e estudantes da área da saúde, artistas, terapeutas holísticos ou qualquer um disposto trocar afetos e saberes. As inscrições serão feitas via internet no blog do coletivo e a seleção será feita a partir do formulário de inscrição.

Quem anda inventando essa arte?

O Fas-ce Paiaço é uma realização da Trupe da Procura e do Projeto Viramundo, iniciativas vinculadas ao Núcleo de Artes e Imanências em Saúde – NARIS que há cinco anos vem trabalhando a interseção entre arte e saúde na Faculdade de Medicina da UFPA. A Trupe é composta de médicos, advogados, jornalistas, e até mesmo um físico, além de estudantes da área da saúde. Dentre as práticas do grupo estão a Palhaçaria de Hospital, Ações Públicas de Promoção da Saúde e a pesquisa acadêmica. O Viramundo é um projeto de extensão que visa a Atenção e Promoção à Saúde das populações em situação de Rua, que congrega estudantes de diversas graduações da saúde e atualmente participa da implementação do primeiro Consultório na Rua na cidade de Belém. Nesta quinta edição O Ciclo de Oficinas fará mais uma vez a função de agregar mais gente à nossa ciranda do cuidado.

A água das águas

O Jalam das Águas é um sitio na região metropolitana de Belém onde reina a gestão colaborativa e são praticadas terapias holísticas, Medicina Ayurveda, Massoterapia, além vivências em Permacultura e oficinas de circo, bioconstrução, palhaçaria e bioarte. Os oito olhos d’água do lugar recebem artistas, andarilhos, demais espíritos criativos para rever nossas práticas de desenvolvimento e e relação com a natureza. Uma dos debates será a proposta de construção de abrigos para população em situação de rua a partir das técnicas que circulam no Jalam.

O que Saúde ter a ver com Arte e Cultura?

Os processos de produção de saúde são essencialmente simbólicos e acontecem mesmo distantes da teorização e objetividades extremas da medicina moderna, que aprendeu a curar a qualquer custo e esqueceu de cuidar. As relações sociais são definidas mais pelos sentidos que criamos a partir da vivência do que da realidade vivida em si, a saúde, por sofrer determinação social, também está sujeita a essas criações que fazemos. E que maneira de dialogar com símbolos senão através da arte? E que melhor arte para isso senão a que trata do corpo enquanto meio de comunicação e diálogo? Escolhemos o Teatro.

Arteciência Cirandeira

Podemos fazer saúde sem metal ou teslas? Nós, e muitas outras pessoas, dizem que sim, então resolvemos experimentar. – Educação Popular para a saúde: Conjunto de técnicas pedagógicas e libertadora que buscam promover a saúde através do Diálogo, valorizando o saber dos povos e as realidades culturais. Construir saúde com povo e não para o povo. http://i.imgur.com/yO6DWCo.jpg – Redução de danos: Sem desintoxicações irresponsáveis, sem mais internações compulsórios. Acreditamos na saúde pela saúde. A nossa querida RD reflete estratégias de proteção, cuidado e auto-cuidado buscando mudanças pequenas e progressivas de atitudes frente às drogas. – Ação Estética em Saúde: As ações estéticas buscam criar, recriar e manipular símbolos através de teatro de livre expressão e do teatro de rua popular, estabelecendo vínculos aproximando na mesma ciranda o cuidador e o cuidado, ocupando com relações de afeto o espaço público. http://i.imgur.com/hrfEFn0.jpg

Paitrocínio

A Trupe ficou lisa e precisou recorrer ao crowndfunding para financiar um ciclo aberto a todos e totalmente gratuito. Para isso nos cadastramos na Plataforma Catarse,  Os fundos arrecadados através do site serão direcionados para o financiamento de todo o evento de forma que qualquer um possa participar, mesmo sem ter grana. Os gastos incluem o transporte até o local do evento, três refeições diárias para todos os participantes (20 selecionados mais 10 integrantes da organização), aquisição de equipamentos de audio e vídeo, custeio de pequenas adaptações no espaço e impressão de material de divulgação, além claro da taxa do catarse e custeio e envio dos brindes. Acesse a página do nosso projeto em http://catarse.me/pt/fascepaiaco. Por enquanto o projeto ainda não está recebendo doações, mais informações me breve.

As inscrições continuaram abertas até dia 05/12, aqueles que já fizeram a sua já a tem garantida. Após o fechamento das novas inscrições divulgaremos os 20 selecionados para criar conosco mais um ciclo de oficinas. Desde já agradecemos o apoio e o interesse em participar da nossa ciranda e pedimos que todos compartilhem o projeto para concretizarmos mais essa sonhação.

Evoé!

ADIAMENTO DO FAS-CE PAIAÇO 2015

ADIADO PARA 13 E 14 DE DEZEMBRO

ADIAMENTO DA DATA DE REALIZAÇÃO DO FAS-CE PAIAÇO

Informamos que devido a problemas no financiamento previsto para o Fas-ce Paiaço 2014, fomos obrigados a adiar a realização de nosso ciclo de oficinas e vivências, realizando-o nos dias 13 e 14 de dezembro.

Sempre prezamos pela acessibilidade de nossas ações, realizando-as gratuitamente ou a preços mínimos, visando oportunizar a participação de qualquer pessoa em nossas atividades. Esta é sexta edição de nosso ciclo de oficinas e vivências, com público total de mais de 400 pessoas. Infelizmente ocorreram problemas inesperados no financiamento desta edição, que nos obrigaram a adiar sua realização.

Entretanto, palhaço é bicho teimoso e resolvemos lançar o crowdfunding (ou quem sabe clownfunding) desse Fas-ce Paiaço. Em alguns dias a página estará no ar e cada um poderá contribuir com o quanto quiser e puder para que nosso caldeirão de arteciência possa borbulhar!

Clique aqui para acessar o vídeo de lançamento do clownfunding do FAS-CE PAIAÇO 2015: Na Natureza do Cuidado.

Em breve, mais informações serão enviadas para o seu email! Pedimos desculpas por quaisquer transtornos, e reiteramos que fizemos de tudo para evitar esse adiamento… Tá vendo? Isso que dá se meter com paiaço! =O)

INSCRIÇÕES ABERTAS!

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ESTÃO ABERTAS AS INSCRIÇÕES PARA AS OFICINAS E VIVÊNCIAS DA TRUPE!

CLIQUE AQUI SE INSCREVA JÁ!

Saiba como foram as oficinas do ano passado no Jalam das Águas!

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Odacir Preto Velho

Por Bruno Passos

Rio de Janeiro/RJ

Odacir é o cantor. Com sua postura grande e serena ele respira sempre profunda e lentamente, de onde ganha ar pra cantar durante horas. Está sempre disposto a sentar numa roda (que não deixa de ser uma ciranda mais calma) e papear, ouvir e contar histórias numa espécie de cenopoesia brincada ali, onde os corpos são pequenos em aparência, mas não em sensação. Cantando, Odacir engendra mandalas de som e corpos humanos em sua legítima “manifestação do inconsciente e busca da reorganização da psique” como descreveu Nise. Mas será Poeise ou Poesia? Com certeza não é um anagrama. A psique se re-harmoniza através da representação da sua própria essência, na poiética eterna de nossas células destruindo-se e criando-se onde o mensageiro pode ser químico ou simbólico.

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As primeiras memórias que tenho do Ocupa Nise em 2012 me pintam imagens queridas, dentre elas a primeira vez que vi Odacir, estava sentado numa posição de cansaço, com a respiração pesada e parecia sonolento, abria os olhos devagar de quando em quando pra se manter na roda. Era um samba que os músicos tocavam e aquela cena que se construía era nossa primeira dentro do hotel da loucura, nossas mochilas ainda estavam no canto da sala.

Vi quando Odacir levantou a mão e pediu pra cantar, e quando começou a roda inteira ficou admirada e sorridente, tinha uma voz rouca dessas de cantar bonitos sambas, era feita pra ele.  E durante muito tempo víamos o cantor fazer seu show, nesses prazerosos momentos para ouvintes, dançantes e pra ele mesmo, Odacir trazia expressão no rosto, normalmente seu rosto era neutro como uma máscara. Um tempo depois descobri que ele era frequentemente impregnado com medicamentos.

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O cantor que encontrei no Ocupa Nise 2014 me fez reviver essas imagens. Ele estava com a s palavras soltas a sair da boca, e com os dentes brancos que os negros ganham quando nascem sempre à mostra. O tempo inteiro pessoas sozinhas ou em grupos chegavam na gira com Odacir Preto Velho, um ritual de cura manifestado pelo inconsciente daquele ser humano que era gente ainda. Naquela roda, o som que saia daquele peito preto era ritmado pelo som do tambor, o tambor de dentro que quando toca vibra vivo o corpo e entende calma a alma. E tudo é novamente criado, tudo mais uma vez creado. Manifesta-se a essência, transformando uma existência noutra existência.

Nesses dias de setembro Odacir vestiu seu corpo xamânico e curou, a si e muito de nós que ouvimos ele cantar, contar histórias, fazer brincadeiras. Fui escolhido pra mais uma breve manifestação desse curador. Estava prestes a voltar pra casa no meu último dia no Hotel da Loucura, vivia a verdadeira polifonia de sentimentos que Vera Dantas um dia me falou, no meio dessa experiência Dantesca cheguei perto de Odacir que estava deitado sozinho em uma esteira no chão e perguntei:

 – E ai meu querido, que achastes do Ocupa Nise esse ano? – no que ele me respondeu:

– Foi muito bom, conheci muita gente de muitos lugares, muita gente diferente – então eu disse:

– É, pena que acabou, agora vai começar a ir todo mundo embora.

– Mas é assim mesmo, agora é esperar o ano que vem quando vai vir mais gente, e outros tipos de gente, e assim vamos conhecendo todos os tipos de gente, essa é a vida

Nesse ponto me calei, abracei minhas malas voltei pra casa.

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O texto acima faz parte das experiências do NARIS durante o Ocupa Nise 2014, evento ocorrido de 1 a 7 de setembro no Instituto Municipal Nise da Silveira, Bairro do Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. O terceiro e quarto andares do prédio principal do Instituto abrigam hoje o Hotel da Loucura, sede permanente da Universidade Popular de Arte e Ciência, em uma ocupação cultural onde atores, músicos, médicos, clientes ainda internados por lá trabalham diariamente a cura coletiva e individual através da arte e suas potencialidades  simbólicas de comunicação e de reorientação dos processos culturais da saúde. O evento desse ano também congregou o IV Congresso da UPAC e o XV Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, nesse burburinho, artistas e profissionais da saúde de quase todos os estados do Brasil e de alguns países (Colômbia, México, Inglaterra, França, Argentina) provaram mais uma vez que a Emoção do Lidar relatada por Nise é a saída para uma saúde que cure de verdade todos os dias.

O NARIS no Gaspar Vianna

O NARIS no Gaspar Viana

 

Com muita eloquência e revestrés convidamos todo mundo para a entrega da Comenda Municipal Gaspar Vianna de Contribuição à Ciência, que será oferecida em reconhecimento ao trabalho do NARIS/Trupe da Procura.

A entrega ocorrerá no dia 22 de maio de 2014, às 9h da manhã na Câmara dos Vereadores de Belém.

Este reconhecimento do município de Belém só reafirma que nossa construção coletiva tem os pés firmes em necessidades que nos irmanam a todos, pois urge uma reforma em nossas práticas de saúde, quer sejam individuais ou em coletividade: um inédito viável científico, estético, político.

A gente só fica meio preocupado com os nossos paiaços no meio de tanto terno e fala embolada- eles vão querer levar coxinha pra casa, sujar tudo falando bobagem de boca cheia… um nojo!

Um nojo desejado e construído arduamente por muitos, posto que nojo quer dizer revelar o oculto, a beleza do feio, o riso no leito gélido, a irmandade imanente das coletividades, a praça pública que se abre em práticas de cura coletiva na troca de afetos!

Por isso afirmamos a troca de saberes e afetos em oposição à esterilidade das relações estabelecidas pelo biopoder através do higienismo. Propõe uma ciência cirandeira, uma arteciência de cuidado e de cura, uma ação estética em saúde.

Afete-se! Afecções e afeições e infecções e feições: salve vidas, não lave as mãos! A poeira da História é meio de cultura concebendo células, poéticas, políticas! A invenção do futuro deve ser pueril! Pra ser gente, todo mundo um dia foi germe… Gentes são escambo de moléculas de afeto.

O Gaspar Viana já entrou ciranda… Vamo junto também? 

Evoé!

 

A primeira vez

Desde que comecei a participar das oficinas, tentava imaginar como seria a entrada no hospital. Depois de acompanhar uma entrada no Barros com a Bribela, Bichado e Ninho, passei a me perguntar se iria conseguir fazer aquilo, os três demonstravam uma facilidade tão grande em interagir e improvisar, me perguntava quando teria o jogo de cintura pra entrar no jogo.

Algumas vezes você entra no jogo porque quer, outras, ele te puxa e quando você percebe já ta dentro. Foi mais ou menos assim na noite de sábado, no meio do jogo, com toda aquela energia acumulada resolvi aceitar a proposta do Vitor e ir pela primeira vez no hospital como palhaço.

Depois de uma noite quase sem dormir, a ansiedade já tomava conta de mim. Será que iria conseguir? O que iria fazer? Como começar? Apesar das dúvidas, eu sabia que queria estar ali, era o que eu queria desde quando comecei as oficinas. Fiquei feliz por ser no Barros, é um ambiente familiar pra mim, me sentia um pouco mais segura, era como voltar pra casa. Mas que casa? Aquele não parecia o mesmo hospital que eu costumava encontrar, os corredores estavam mais calmos, a tensão no ar era tão grande que chegava a ser praticamente palpável, os funcionários, antes tão receptivos, amigáveis e animados daquela primeira vez que acompanhei uma entrada, agora estavam tão sérios e focados no trabalho, seria impressão minha devido a ansiedade, ou seria reflexo do novo modelo de gestão implantado recentemente no hospital?

Tirar a minha roupa “normal” e vestir a roupa de palhaço foi como um ritual de preparação, quanto mais me cobria com a máscara do palhaço, mais descoberta eu me sentia, quando finalmente terminei, me sentia completamente nua, acho que poucas vezes me senti tão descoberta. Botar o nariz vermelho foi ponto final, como pode um objeto ter um poder tão grande? É o tipo de coisa que por mais que eu me esforce, nunca conseguiria descrever, existem coisas que não podem ser contadas, apenas vividas, essa é uma delas.

Finalmente deixei der ser Pâmela e me tornei Panelinha, a animação tomava conta de mim, já estava quase me acostumando com aquele frio na barriga que sentia desde a hora que acordei, mas agora ele estava muito maior, porém nada se comparava com a sensação de liberdade, eu estava livre de todas as amarras que nos são impostas durante a vida, ninguém esperaria um “comportamento ideal”, eu não precisava “me comportar como se espera de uma moça”, não precisava “me portar com seriedade”, não precisava saber sempre a “resposta certa”, eu era uma palhaça e ninguém nunca espera que um palhaço esteja “alinhado com a sociedade”.

É incrível como a figura do palhaço tem o poder de modificar o ambiente, toda aquela tensão do ambiente se dissipou, e aqueles profissionais se permitiram um sorriso e algumas brincadeiras mesmo que por um curto período.

Depois de tomar os corredores era a hora da primeira enfermaria. Éramos três, Panelinha, Ninho e Bixana, não tínhamos roteiro nem nada combinado, com duas palhaças de primeira viajem, Ninho tomou a frente. Descrever tudo o que aconteceu seria impossível, cada enfermaria era um público novo, um mundo novo, os primeiros olhares que nos recebiam eram um misto de animação e curiosidade, talvez um reflexo dos nossos próprios olhares.

O que poderiam fazer três criaturas desengonçadas em um hospital? Provavelmente alguém se fez essa pergunta, nesse caso, eu me perguntava, mas como se soubesse o que se passava na minha cabeça, Ninho deu a ideia “Vamos fazer um desfile!”. Claro! Para se iniciar alguma coisa devemos nos apresentar, aprendemos isso desde criança, e existe forma melhor de apresentar alguém do que em um desfile? Com toda a classe e (falta de) destreza que um palhaço tem, a manhã se transformou em um pequeno grande desfile.

Para alguns bastava a presença do palhaço para se conseguir um riso, outros eram mais difíceis, principalmente as crianças menores, um pouco mais desconfiadas daquelas três criaturas que não pareciam estar de acordo com a realidade, como a pequena Layane, no auge da sabedoria dos seus menos de dois anos estava decidida que não iria dar o braço a torcer, mas ninguém resiste a um carinho nos dedinhos do pé, aos poucos aquela barreira foi se quebrando e um riso discreto lutava para sair pelo canto da boca, aos poucos ela foi se entregando e se deixou dominar por aquele sorriso, e tem coisa melhor do que isso? Acho que não.

Por incrível que pareça (pra quem nunca viu uma entrada de palhaços no hospital), os adultos participam muito mais que as crianças, alguns são mais receptivos, outros são como a pequena Layane, você tem que trabalhar pra encontrar o ponto fraco daquela parede nos separa. Alguns querem registrar, outros tentam se esconder, uns se limitam apenas a rir e ficam envergonhados em um primeiro momento, outros entram no jogo de cabeça, dançam, cantam e levam os mais tímidos junto. Quando os adultos entram na brincadeira tudo flui com mais facilidade, a impressão que tive foi que no meio daquela realidade tão estressante, o palhaço vem como um bote salva-vidas, onde eles se agarram e por algum momento podem brincar e esquecer os problemas.

As duas ultimas enfermarias foram dois desafios, não só pela fome que começava a bater, afinal, já era hora do almoço, mas porque nas duas encontramos crianças que estavam bastante assustadas, uma barreira que não conseguimos quebrar, no corredor Ninho ainda conseguiu uma aproximação rápida, mas não teve acordo com rapazinho, com isso a mãe preferiu leva-lo para outra enfermaria enquanto estávamos lá. Na penúltima enfermaria as outras crianças estavam alvoroçadas, foi onde as crianças mais participaram. A mocinha de 6 anos e nome difícil, tinha uns olhos tão brilhantes que pareciam que a qualquer momento iriam saltar de tanta felicidade, parecia querer dividir tudo com a gente, a cada brinquedo que nos mostrava seus olhos brilhavam a espera de qualquer reação nossa, sempre pulando de animação e alegria. Não posso deixar de falar do pequeno Cauê, de inicio se mostrou curioso e um pouco tímido, mas com um pouco de conversa mostrou que tinha o coração mais galanteador que uma criança de 3 anos pode ter, e todo aquele amor nos seguiu com beijos no corredor.

Na última enfermaria chegamos em clima de almoço, mais conversa e menos trabalho com o corpo, o ambiente estava mais calmo e pedia isso da gente, mas mesmo assim as mães/avós estavam bastante participativas e a conversa rolou solta, assim como o riso da pequena Letícia, que pouco falou, mas que bastava um olhar para ela se desfazer em risadas.Com esse clima bom nos despedíamos, a manhã já tinha acabado e era hora de desmontar Panelinha, Ninho e Bixana.

Existem cinco coisas desse dia que nunca vou esquecer, o riso difícil da Layane, o riso fácil da Letícia, o olhar da mocinha de 6 anos, os beijos do Cauê e os agradecimentos dos pais, pouco falei desse último, mas quando estávamos indo embora alguns pais/avós nos agradeceram por estar lá, e todo aquele sentimento transbordava pelos seus olhos, apertava minha garganta, aquecia e disparava meu coração. Se alguém me perguntar novamente por que continuar na trupe, já sei a resposta.

Por Pâmela Thais

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PamPâmela é a palhaça Panelinha, ela também é Graduanda do Curso de Medicina da Universidade Federal do Pará e membro do NARIS- Núcleo de Artes Como Instrumento de Saúde. Esta iniciativa faz parte do projeto de estímulo à produção literária, onde buscamos uma outra forma de registro e transmissão de nossas lutas pela saúde através da arte. Por uma nova medicina, alegre, poderosa, transformadora, ciente da riqueza cultural do homem e das potencialidades que o domínio da expressividade encerra. Essa é nossa provável cura, nossa eterna procura.