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Procura na Memória

A primeira vez

Desde que comecei a participar das oficinas, tentava imaginar como seria a entrada no hospital. Depois de acompanhar uma entrada no Barros com a Bribela, Bichado e Ninho, passei a me perguntar se iria conseguir fazer aquilo, os três demonstravam uma facilidade tão grande em interagir e improvisar, me perguntava quando teria o jogo de cintura pra entrar no jogo.

Algumas vezes você entra no jogo porque quer, outras, ele te puxa e quando você percebe já ta dentro. Foi mais ou menos assim na noite de sábado, no meio do jogo, com toda aquela energia acumulada resolvi aceitar a proposta do Vitor e ir pela primeira vez no hospital como palhaço.

Depois de uma noite quase sem dormir, a ansiedade já tomava conta de mim. Será que iria conseguir? O que iria fazer? Como começar? Apesar das dúvidas, eu sabia que queria estar ali, era o que eu queria desde quando comecei as oficinas. Fiquei feliz por ser no Barros, é um ambiente familiar pra mim, me sentia um pouco mais segura, era como voltar pra casa. Mas que casa? Aquele não parecia o mesmo hospital que eu costumava encontrar, os corredores estavam mais calmos, a tensão no ar era tão grande que chegava a ser praticamente palpável, os funcionários, antes tão receptivos, amigáveis e animados daquela primeira vez que acompanhei uma entrada, agora estavam tão sérios e focados no trabalho, seria impressão minha devido a ansiedade, ou seria reflexo do novo modelo de gestão implantado recentemente no hospital?

Tirar a minha roupa “normal” e vestir a roupa de palhaço foi como um ritual de preparação, quanto mais me cobria com a máscara do palhaço, mais descoberta eu me sentia, quando finalmente terminei, me sentia completamente nua, acho que poucas vezes me senti tão descoberta. Botar o nariz vermelho foi ponto final, como pode um objeto ter um poder tão grande? É o tipo de coisa que por mais que eu me esforce, nunca conseguiria descrever, existem coisas que não podem ser contadas, apenas vividas, essa é uma delas.

Finalmente deixei der ser Pâmela e me tornei Panelinha, a animação tomava conta de mim, já estava quase me acostumando com aquele frio na barriga que sentia desde a hora que acordei, mas agora ele estava muito maior, porém nada se comparava com a sensação de liberdade, eu estava livre de todas as amarras que nos são impostas durante a vida, ninguém esperaria um “comportamento ideal”, eu não precisava “me comportar como se espera de uma moça”, não precisava “me portar com seriedade”, não precisava saber sempre a “resposta certa”, eu era uma palhaça e ninguém nunca espera que um palhaço esteja “alinhado com a sociedade”.

É incrível como a figura do palhaço tem o poder de modificar o ambiente, toda aquela tensão do ambiente se dissipou, e aqueles profissionais se permitiram um sorriso e algumas brincadeiras mesmo que por um curto período.

Depois de tomar os corredores era a hora da primeira enfermaria. Éramos três, Panelinha, Ninho e Bixana, não tínhamos roteiro nem nada combinado, com duas palhaças de primeira viajem, Ninho tomou a frente. Descrever tudo o que aconteceu seria impossível, cada enfermaria era um público novo, um mundo novo, os primeiros olhares que nos recebiam eram um misto de animação e curiosidade, talvez um reflexo dos nossos próprios olhares.

O que poderiam fazer três criaturas desengonçadas em um hospital? Provavelmente alguém se fez essa pergunta, nesse caso, eu me perguntava, mas como se soubesse o que se passava na minha cabeça, Ninho deu a ideia “Vamos fazer um desfile!”. Claro! Para se iniciar alguma coisa devemos nos apresentar, aprendemos isso desde criança, e existe forma melhor de apresentar alguém do que em um desfile? Com toda a classe e (falta de) destreza que um palhaço tem, a manhã se transformou em um pequeno grande desfile.

Para alguns bastava a presença do palhaço para se conseguir um riso, outros eram mais difíceis, principalmente as crianças menores, um pouco mais desconfiadas daquelas três criaturas que não pareciam estar de acordo com a realidade, como a pequena Layane, no auge da sabedoria dos seus menos de dois anos estava decidida que não iria dar o braço a torcer, mas ninguém resiste a um carinho nos dedinhos do pé, aos poucos aquela barreira foi se quebrando e um riso discreto lutava para sair pelo canto da boca, aos poucos ela foi se entregando e se deixou dominar por aquele sorriso, e tem coisa melhor do que isso? Acho que não.

Por incrível que pareça (pra quem nunca viu uma entrada de palhaços no hospital), os adultos participam muito mais que as crianças, alguns são mais receptivos, outros são como a pequena Layane, você tem que trabalhar pra encontrar o ponto fraco daquela parede nos separa. Alguns querem registrar, outros tentam se esconder, uns se limitam apenas a rir e ficam envergonhados em um primeiro momento, outros entram no jogo de cabeça, dançam, cantam e levam os mais tímidos junto. Quando os adultos entram na brincadeira tudo flui com mais facilidade, a impressão que tive foi que no meio daquela realidade tão estressante, o palhaço vem como um bote salva-vidas, onde eles se agarram e por algum momento podem brincar e esquecer os problemas.

As duas ultimas enfermarias foram dois desafios, não só pela fome que começava a bater, afinal, já era hora do almoço, mas porque nas duas encontramos crianças que estavam bastante assustadas, uma barreira que não conseguimos quebrar, no corredor Ninho ainda conseguiu uma aproximação rápida, mas não teve acordo com rapazinho, com isso a mãe preferiu leva-lo para outra enfermaria enquanto estávamos lá. Na penúltima enfermaria as outras crianças estavam alvoroçadas, foi onde as crianças mais participaram. A mocinha de 6 anos e nome difícil, tinha uns olhos tão brilhantes que pareciam que a qualquer momento iriam saltar de tanta felicidade, parecia querer dividir tudo com a gente, a cada brinquedo que nos mostrava seus olhos brilhavam a espera de qualquer reação nossa, sempre pulando de animação e alegria. Não posso deixar de falar do pequeno Cauê, de inicio se mostrou curioso e um pouco tímido, mas com um pouco de conversa mostrou que tinha o coração mais galanteador que uma criança de 3 anos pode ter, e todo aquele amor nos seguiu com beijos no corredor.

Na última enfermaria chegamos em clima de almoço, mais conversa e menos trabalho com o corpo, o ambiente estava mais calmo e pedia isso da gente, mas mesmo assim as mães/avós estavam bastante participativas e a conversa rolou solta, assim como o riso da pequena Letícia, que pouco falou, mas que bastava um olhar para ela se desfazer em risadas.Com esse clima bom nos despedíamos, a manhã já tinha acabado e era hora de desmontar Panelinha, Ninho e Bixana.

Existem cinco coisas desse dia que nunca vou esquecer, o riso difícil da Layane, o riso fácil da Letícia, o olhar da mocinha de 6 anos, os beijos do Cauê e os agradecimentos dos pais, pouco falei desse último, mas quando estávamos indo embora alguns pais/avós nos agradeceram por estar lá, e todo aquele sentimento transbordava pelos seus olhos, apertava minha garganta, aquecia e disparava meu coração. Se alguém me perguntar novamente por que continuar na trupe, já sei a resposta.

Por Pâmela Thais

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PamPâmela é a palhaça Panelinha, ela também é Graduanda do Curso de Medicina da Universidade Federal do Pará e membro do NARIS- Núcleo de Artes Como Instrumento de Saúde. Esta iniciativa faz parte do projeto de estímulo à produção literária, onde buscamos uma outra forma de registro e transmissão de nossas lutas pela saúde através da arte. Por uma nova medicina, alegre, poderosa, transformadora, ciente da riqueza cultural do homem e das potencialidades que o domínio da expressividade encerra. Essa é nossa provável cura, nossa eterna procura.


Rosa Vermelha

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Tudo foi como o brotar de uma pequenina, vermelha e tímida rosa que surge do concreto em meio ao caos e a bagunça que aquele tempo e espaço possibilitavam a ela. Deixei de lado Belém, a faculdade, os cérebros, cerebelos e as neuradas, tentei afastar tudo que estava impossibilitando a minha rosa de respirar, mesmo que para isso tivesse que esquecer, nem que só por um momento, as provas, relatórios e casos clínicos que me aguardavam. A primeira impressão foi medo, surgiu uma vontade enorme de correr pro percurso natural de um final de semana cheio de estudos e horas marcadas, porém a minha ainda pequena rosa me pedia pra ficar e aguardar ansiosamente pela chegada do amanhecer.

Quando um sol lindo apareceu sorrindo pra mim no segundo dia meu coração decidiu “se permitir” tentar, lutar pelo que realmente tinha me levado até ali. O sol, a ponte, as folhas, o ar diziam-me: coragem! Relembrar minha infância quebrou minhas barreiras, as minhas limitações e o resto de algum preconceito. Lembrei-me de quando criança chegava em casa e encontrava meus pais ainda casados, que eu escrevia na parede com o batom da minha mãe, lembrei dos meus cachinhos enormes que iam até a cintura (quanta saudade desses cachos), os quais ainda não tinham sido destruídos pela chapinha, químicas e uma sociedade que dizia que eles eram cabelo ruim. Essa foi a memória mais antiga que consegui encontrar, até pensei num futuro colocar o nome da minha palhaça de cachinhos, mas isso será para um futuro. Lembrei do meu pai cantando a música que marca o nosso relacionamento “sou eu que vou seguir você do primeiro rabisco ate o be-a-bá, em todos os desenhos coloridos vou estar… (Toquinho)”, cheguei a pensar em cantar essa música antes da travessia da ponte, porém ainda sou tímida ao extremo, algumas bobas palavras substituíram a música. O engraçado foi lembrar muito mais do meu pai do que da minha mãe, apesar da minha ligação com ela ser muito mais forte, acho que isso ocorreu porque enquanto ela me trata como a adulta futura Doutora Luísa ele me trata como o seu Megabebê. O que eu acumulei de energia nesse dia foi muito precioso, me fez ter vontade de voltar a ser criança, a bebêzinha de cachinhos enormes que chupou pipo até os 5 anos, que brincou de boneca até os 12 e que sonhou aos 7 que seria médica. Nesse dia até descobri que tem uma música do Tom Jobim com meu nome! Senti tanta vontade de saber cantar todas as músicas que a trupe cantava, saber declamar tão perfeitamente poemas como eles faziam, saber cuidar do próximo como cuidar de mim! Em meio aos novos sentimentos que se apoderavam do meu coração nascia a minha rosa vermelha, que não significa somente o nascimento do meu palhaço, mas também o nascimento de um novo olhar para tudo que estava a minha volta, quando isso aconteceu não tive dúvidas que estava no lugar certo.

Ao nascer do lindo sol de sábado meu coração já estava em paz, se sentia em casa. Correr, pular, ou fingir ser a cor azul era agora algo que me dava alegria, era tentar ser o impossível sem medo, pois no mundo mágico de uma criança nada é impossível, não existem regras ou mandamentos lá. Foi voltar a ser a doce menininha de cabelos cacheados, foi me sentir leve e doce como ela se sentia, sem estresses cotidianos, sem neurar o irmão. As brincadeiras acumularam em mim essa vontade de tentar ser no meu palhaço essa criança que eu fui, ela era doce, meiga, amável e as vezes um pouco mimada, mas feliz. Vestir o nariz e soltar tudo que tinha sido guardado foi mágico, era ficar sem preocupações, sem restrições e poder sorrir do vento ou da palhaçada de um palhaço. Cada nova sensação, poesia, riso e brincadeira despertaram uma vontade de nunca mais ir embora do Jalam das Águas, ter visto o céu estrelado e limpo na beira de uma fogueira ouvindo Gilberto Gil foi inexplicável.

Aprendi a olhar nos olhos e transmitir com o olhar paixão, ternura, carinho e cuidado. O cortejo dos palhaços bonitos me permitiu tentar usar o meu novo olhar, o qual recebe de recompensa olhares belos e simples. Poder ser olhada por uma criança que sorri é mágico, ela te dá aquele brilho nos olhos de quem descobre o mundo e um sorriso sincero que acalma a alma. Desde que quis ser medica tive vontade de poder trazer felicidade a alguém, mesmo quando estava no cursinho lutando para passar no vestibular já pensava que a primeira vez que salvasse uma vida, nem que fosse aquela única vida, já valeria tudo o que tinha “sofrido”. Nunca salvei uma vida, entretanto, nesse fim de semana todo esse “sofrer” já começou a fazer cada vez mais sentido, pois salvar uma vida não se resume em receitar a cura com o fármaco mais avançado do mercado, resgatar alguém da tristeza, do choro e da indiferença é uma forma de salvar alguém da morte emocional e psicológica, que as vezes dói até mais se comparada a uma dor de barriga. Olhar nos olhos de uma mulher, a qual nos deu da sua água, e dizer obrigada representou o quanto devemos ser gratos nos mínimos detalhes a todas as pessoas que nos fazem o bem. Um olhar faz toda a diferença, porque cada olhar é único, assim como cada pessoa é única e deve ser tratada como tal.

A minha rosa vermelha de palhaço e esperança apenas brotou, sou consciente que preciso regá-la com muito amor para realmente ser a diferença por onde for, principalmente, ser diferente no egoísta mundo dos “deuses” de jaleco branco. Depois da volta do Jalam das águas olhei imediatamente pro céu e senti saudades da luz brilhante da lua e das dezenas de estrelas que avistava em Benevides, foi triste apenas ver fumaça e nuvens de chuva, entretanto, fico feliz em saber essa experiência trouxe a luz de um novo amor, o amor pelo “cuidar do outro é cuidar de mim”.

Por Luísa Taynah Paixão

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Mãe-898523Luísa  é egressa do Fas-ce Paiaço 2013 e está com sua palhaça em formação, ela também é Graduanda do Curso de Medicina da Universidade Federal do Pará e membro do NARIS- Núcleo de Artes Como Instrumento de Saúde. Esta iniciativa faz parte do projeto de estímulo à produção literária, onde buscamos uma outra forma de registro e transmissão de nossas lutas pela saúde através da arte. Por uma nova medicina, alegre, poderosa, transformadora, ciente da riqueza cultural do homem e das potencialidades que o domínio da expressividade encerra. Essa é nossa provável cura, nossa eterna procura.


O diário de bordo de Bichado

Às 10 horas da manhã de sexta-feira, dia 27 de dezembro, eu acordei. Usava um suspensório azul e uma grava borboleta vermelha. Abaixo da minha boca havia um semicírculo e outra forma branca; minhas bochechas estavam ruborizadas. Meu nariz era vermelho e meus olhos gigantes. Estava acompanhado pela Dra. Bribela Passarinho e pelo Besteirologista Ninho no Hospital Universitário Barros Barreto. Como não era médico nem nada, apenas os segui.

Andamos pelo corredor. Lá eu via alguns cômodos, enfermeiras, pacientes, funcionários. Algumas pessoas estavam indiferentes, muito sérias ou tristes; outras também poderiam estar tristes, mas eram curiosas, conversavam e nos perguntavam coisas. Íamos brincando com a balança antiga, com as janelas, com tudo que aparecia. O clima era ameno e pela janela entrava um vento suave. Víamos as enfermeiras contando o seu Natal, a reação de quem passava e então seguimos à primeira sala na ala pediátrica.

As crianças estavam deitadas em seus leitos, sentadas no colo das mães, algumas dormindo. Sequer se via presentes de Natal. Mas no olhar delas havia algo de especial, de natalino que costuma estar em falta nos hospitais. Cada uma sai do seu leito, do seu mundo de doente entregue aos cuidados médicos e juntam-se a nós. Não é para ver uma apresentação, para que contemos piadas, mas para brincar, conversar, habitar um mundo menos adulto. Não riem por verem palhaços engraçados, mas riem porque brincam – porque agora as moléstias eram outras, era outro hospital. Riem de si, do que acontece, dos outros, da doença. Doente é o hospital aos olhos da criança.

E assim seguimos por várias salas, com muita gente, crescida ou não, e houve gritos, confusões, histórias e risos. As crianças se juntavam, mesmo quem estava em outro quarto queria fazer parte. Algumas choram, outras estão com fome, outras estampam a doença – a maior enfermidadede um hospital não seria transformar as crianças em doentes?

Quando tirei a maquiagem, as roupas, o nariz, fechei os olhos e saído hospital, parecia que eu fui visitado, eu era o doente. Aquelas crianças que brincavam, sorriam, pulavam que estavam fazendo algo para mim. Então voltei pra casa alegre, sabendo que há quem compartilhe algo de sua preciosa infância a quem no fundo também vive em um leito – que invisível, o acompanha a toda parte.

Por Gilberto Guimarães 

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1240477_558615307544856_1954097275_nGilberto Guimarães Também é o palhaço Bichado, além de Bacharel em Direito pela Centro Universitário do Pará e membro do NARIS- Núcleo de Artes Como Instrumento de Saúde. Esta iniciativa faz parte do projeto de estímulo à produção literária, onde buscamos uma outra forma de registro e transmissão de nossas lutas pela saúde através da arte. Por uma nova medicina, alegre, poderosa, transformadora, ciente da riqueza cultural do homem e das potencialidades que o domínio da expressividade encerra. Essa é nossa provável cura, nossa eterna procura.


Os Jalecos Coloridos

Convergence, Jackson Pollock, 1952

Texto de Vitor Nina, sob mote de Junio Santos

Para Letícia Nunes

Fui internado naquela hora em que a escuridão é tão escura que até o chão adormece e a gente tropeça na gente. Por isso falo com propriedade, porque vi de perto quando eles surgiram, e todo dia desde então, foi assim: antes mesmo do primeiro fio de luz de sol ensolarar o hospital, lá estão eles, os jalecos brancos, brancos, da cor alva e celeste dos lírios, das claras de ovo. Os jalecos brancos, de tão brancos, estão sempre despertos e em prontidão; o olho eternamente aberto, tal qual folha de papel, de tão lúcido, mal permite entrever a cor da íris. Os jalecos brancos não desconfiam, sabem. Não há dúvidas, está tudo claro, forte, limpo, como o leite desnatado, pasteurizado; não há dúvidas sobre o leite e sua coalha, as vacas todas foram plenamente estudadas em estudos multicêntricos randomizados, e hoje são brancas, branquinhas, tal qual são as vacas e galinhas dos comerciais de TV. Ou os jalecos brancos. É um alvejante poderoso, a razão, puro cloro e protocolo, água sanitária tão pura que é quase benta, trazida pela mão zelosa dos jalecos brancos, branquinha feito hóstia, feito pipoca de cinema. A cabeça do jaleco branco é reta até onde a vista alcança, está saneada, branca do branco mais puro, e até quando chora, são olhos d’água sanitária. Os jalecos brancos trazem o dia, vinte e quatro horas por dia, sem descanso, sem curvas, sem noites e sem dias.

O que os jalecos brancos não desconfiam é que, mal terminam seu breve protocolo interminável, logo a boca da noite abre o seu sorriso de estrelas, e dá uma gargalhada imensa, e do som que cai delas vêm me visitar os jalecos coloridos, coloridos, coloridos por artes noturnas e ciências de sol, os jalecos coloridos brincam comigo de braços abertos, giram no ar anunciando suas equações… Daqui de onde vejo, parecem um arco-íris cirandando, e anunciam, “toda sombra engendra uma comédia, eis o tombo do mundo!”. Daí fazem cara de bobo e tropeçam na minha cama, derramando luz por toda enfermaria, fazendo cosquinha com a pontinha das estrelas e quando alguém ameaça morrer de rir, eles anunciam, “de cada broto de riso brota uma flor!”, e ouvindo isso eu já nem penso em velório, penso é em casamento, olho a vida vestida de noiva e, no fim da cauda de seu véu…

Os jalecos coloridos sabem ficar daquela cor que têm as mãos depois de bater palmas, dos olhos quando avermelham, uns têm cor de pulo de menino, outros cor de lembrança de velhinho… Um dia, ao ver os olhos de água e sal da senhora do leito 54, gritaram como quem grita eureca: “a memória é uma lama de oceanos!”. Os jalecos coloridos têm cor de tudo, até de burro quando foge, e mesmo cor de jaleco branco. Mas tropeçam em tudo e sua ciência sai toda aquarelada, e eles ainda justificam com a cara mais limpa e colorida do mundo: “A humanidade é prosa, mas o homem é de versos!”. E o hospital de enfermos estremece com tanta gente dando riso solto e riso frouxo, e os jalecos se empolgam e até se fingem de poetas, “ouvir-se para não olvir-se” eles recitam, com um olhar apaixonado para a lua e algumas lágrimas de crocodilo, “o abismo só está com sono, as estrelas são o habitat da noite!”, vão repetindo com voz de locutor de rádio enquanto atravessam a madrugada até trombarem na alvorada.

Os jalecos coloridos estão todos sujos de gente, em sua higiene de caleidoscópios. E sua cor permanece conosco, nos olhos da boca e nos ouvidos da língua. Em pleno meio dia na enfermaria de enfermos, ainda ecoa sua voz a raciocinar alucinada que “a pipoca é a pérola do milho!”, que “a borboleta é uma folha rebelde!” e que “toda janela é um poço de visões!”. Ainda por cima são metidos a esfinge, “devora-me pra que me decifres”, e pouco a pouco a gente começa a descobrir… Um dia o leito 47 gritou de súbito: “as nuvens são as copas, e os raios são seus galhos”, ao que outro número respondeu, “Então os ventos são raízes!”, “o canto do passarinho é o seu fruto!”, diz um algarismo e outro responde, “cantar junto é um suco de sons!”, quase num algoritmo.

O que ninguém ainda percebeu, tampouco podem os jalecos brancos inferir, é que os jalecos coloridos não surgiram de estrelas espatifadas, como ainda é o boato que corre entre os enfermos mais imaginativos, mas já estavam aqui e, de fato, já estávamos vestidos com eles antes mesmo da internação. Talvez tenham nos internado justamente por vesti-los. Talvez as estrelas tenham surgido na gente, do atrito entre o ferro e o oxigênio, que faiscavam ao atravessar a gordura das células, o que explicaria o vermelho, o azul, o sangue, a íris, o intestino e o sonhar, e o porquê deles possuírem a mesma natureza e brotarem como crescem os cabelos, as unhas e os sorrisos.

De fato, se a gente reparar bem, nota-se que em cada leito de enfermo há uma pessoa e que dela emana algo dessa cor sem nome, deste traje sem panos, desta respiração profunda de cura. É notável, ancestral e belo e, portanto, em nome da ciência, anuncio aos jalecos brancos: Vossas senhorias estão em delírio febril, pois seus corpos e vestes convulsionam sem dançar. O pano caiu, patognomônico de que não há pano nem parede. Vossas senhorias, aí, de pé, estão deitadas no leito de enfermos, e em seus jalecos brancos só há luz exangue. Ouçam a voz daquelas cores, “o abraço é uma camisa que dá força!”. Nós, os internados, flutuamos com  o hospital, fizemos do hospital um balão de hélio, nós espocamos o hospital. Nós, os enfermos, flutuamos sobre vocês, vestidos das cores de nós mesmos, porque tudo é onde tudo é são.


Contra a Criminalização do Pôr do Sol

Sunrise by the ocean de Wladmir Kush

Por Hugo Leonardo Mercês

Parar no século XXI parece levar-nos a um sentimento de irreversível perda de tempo. E perder não está no vocabulário de uma humanidade neoliberalizada. O andar lento e a contemplação, realidades supostamente distantes de nosso ideal urbano, tornou-se ridículo.

Mas hoje decidi ridicularizar. E, assim, de repente e subversivo, parei para assistir ao por do sol. Em minutos sonhei com meus olhos abertos e ofuscados pela luz refratada em nuvens, refletida na pele velha e enrugada do rio Guamá e perdida numa garrafa vazia que destacava-se em suas águas. Aqui registro meu imenso lamento por quem jogou essa garrafa n’água e perdeu a oportunidade de escrever uma carta de amor para um qualquer desconhecido ou desconhecida.

E, com os minutos, as sombras vão delineando outras imagens, esclarecendo tons e verdades que o egoísmo da luz obnubila. Era noite. Perdi tempo, olhando o céu nas alturas e o céu refletido nas águas. Cercava-me tudo, menos certezas. Ao longe ouvia-se música de preto. Lembrei que sou baiano e senti um imenso orgulho disso. De perto ouviam-se batuques desafinados de pessoas que também contemplavam o crepúsculo e compartilhavam o prazer de ouvir música de preto.

Em instantes, o prelúdio da noite revelou a poética dissonância de muitos que param, perdem, vivem e permitem-se amar.

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Hugo Leonardo Mercês é advogado e membro do NARIS e no momento descobre as dores e delícias do seu ridículo. Em breve achamos que raia um palhaço do nariz dele! Já dá até pra ver o céu avermelhando de aurora!


Procura na Memória: A procura da arte pública

Da entrada à saída, por Gabriel Andrade

Da entrada à saída, por Gabriel Andrade

Quem Pró.Cura Acha, por Thiago Paladino

Quem Pró.Cura Acha, por Thiago Paladino

Após longo e tenebroso inverno, o Procura na Memória volta em dose dupla! O NARIS promove a ocupação dos espaços públicos para a Promoção da Saúde através da arte e da alegria. Dois de nossos artecientistas tratam de suas experiências em ambiências diversas:

Quem Pró.Cura Acha: Thiago Paladino, clown e artista de rua, relata suas primeiras experiências no ambiente hospitalar com a palhaço-terapia.

Da entrada à saída: Gabriel Andrade, estudante de medicina, relata suas primeiras experiêncas na praça pública como palhaço/artista de rua.

Promovendo a troca de saberes e a transdisciplinaridade, o NARIS e a Trupe da Procura investem na arte pública enquanto exercício cidadão. A saúde é uma praça pública e devemos ocupá-la! Estes relatos são ilustrações eloquentes que esta experiência é promissora! Confira!


Da entrada à saída

Da Entrada à Saída

O palhaço Canja rememora suas experiencias no hospital e na praça pública

Por Gabriel Andrade

Como esquecer do dia das crianças em que talvez tenha sentido mais medo? No qual seria eu o motivo da risada. Em que teria por plateia um público mirim sedento por algo que eu de certo discutia…mas não entendia. E mesmo que entendesse poderia ainda me perguntar se meus olhos seriam a fonte que saciaria sua sede.

E ali estava eu. Vestido. Pintado. Pasmo. Aparvalhado. Pronto? Um homem disfarçado de palhaço, disfarçando consigo suas ânsias, medos, baixa autoestima artística e uma série de coisas que seria por certo enfadonho discorrer tanto para mim quanto para quem lê esse texto.

Mas assim foi o prelúdio da minha primeira entrada na enfermaria pediátrica do Hospital Universitário João de Barros Barreto, no dia 12.10.2011. A entrada realmente fora um sucesso, mas dentro de mim havia o fracasso. Devo muito aos amigos que entraram comigo a chance de me esconder de mim mesmo, por trás de seus bons palhaços, de algumas músicas, de uma piada pronta. E aos mesmos devo a chance de descobrir em mim os medos, falhas e tragédias particulares de um palhaço recém-nascido, que se esconde atrás da fala e do chapéu que usa.

Após essa entrada tantas outras se sucederam. Admito ter falhado em todas, por isso me percebo triunfante, pois o que é o palhaço senão aquele que erra, perde, se engana, se reconstrói e refaz o mundo à sua volta. Logo devo admitir que ganhei em todas. Longe de ser objeto acabado, ainda busco a essência da substância do contato e do afeto.

Descobri muito cedo o medo do ridículo que enfrentamos todos na nossa Trupe (até que aprendemos a nos regozijar com ele, é claro). Descobri também que todo contato é um ato de coragem e que a procura do outro e de nós mesmos são ofícios indissociáveis. Ainda estou descobrindo, no entanto, que a coragem é a filha rebelde do medo e que só lhe é possível conquistar os domínios arrendados pelo pai severo.

Aí finalmente surge o estopim do ato heroico que agora divido com vocês neste texto, mas que só é heroico mesmo no meu íntimo pensamento último de antes de dormir e que a ninguém salva, a não ser a mim mesmo das minhas próprias vilanias.

Chego no nosso ensaio de sábado com uma proposta para a Trupe, dia 19.05(domingo), um dia após o dia da luta antimanicomial, ocorreria uma manifestação do MLA (Movimento da Luta Antimanicomial) de Belém, onde haveriam trabalhadores da área, usuários do sistema, artistas e quem mais se chegasse. Ora, seria um bom espaço de inserção para a Trupe. Mas todos com o domingo ocupado…sobrava apenas eu, que iria de qualquer jeito. Daí surge a proposta mais que indecente:

– Eu acho que deverias ir de palhaço, cara.

Daí surge o medo! Uma coisa é fazer uma entrada no hospital de palhaço, onde eu já conheço, o ambiente é familiar, sabidamente receptivo, além do mais sempre entramos em conjunto. Mesmo que fosse em praça pública, uma coisa é sair com um programa semi-estruturado, com a galera da trupe se dando apoio, mas assim…sozinho…sem nenhuma garantia ou porto seguro?

O sentimento de ser um homem disfarçado de palhaço me invadia de novo, a idéia de sair assim sozinho deixava o meu palhaço vazio e o que preenchia sua roupa seria novamente um homem: vestido, pintado, pasmo, aparvalhado. Até que o ensaio do sábado se encerrou e só sobrava o domingo seguinte, a dúvida e o medo… Mas faltava a coragem. E já que coragem não é coisa que venha assim de fora pra dentro da gente, mas sim que plantamos, fui lá e plantei a coragem (devo é claro lembrar do adubo dos amigos da trupe, principalmente do Vitor e do Bruno). Fui pra rua, de palhaço.

Resultado: alguns sorrisos e fotos, algumas pessoas que se aborreceram, um ou outro de cara emburrada. Mas o mundo era outro ali, e houveram abraços, olhares e apertos de mão. Houve dança e muitos dançaram. A subversão se tornou uma regra e o mundo estava mudado. Não foi fácil, mas, em meio à dor e ao receio, o palhaço tinha sido parido, nascia novamente como muitas vezes nasceu, no meio do povo.

Conclusão: Falhas muitas, não sei quantificar de tantas, mas sobrevivi. E ao tirar a roupa e o nariz percebi que era agora um palhaço que se fantasiava de homem, o ridículo estava ali ao alcance de quem observasse melhor. Sair na rua sozinho e desamparado foi uma libertação. Pensando bem, na verdade não estava tão desamparado, se eu estava ali é porque sempre carrego comigo a trupe inteira. E me carregam sempre a minha criança, o meu palhaço.

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Gabriel Andrade como Palhaço De la CanjaGabriel Andrade é o palhaço De la Canja, integrante do Serviço de Palhaço-Terapia da Trupe da Procura. Esta iniciativa faz parte do projeto de estímulo à produção literária, onde buscamos uma outra forma de registro e transmissão de nossas lutas pela saúde através da arte. Por uma nova forma de praticar saúde, alegre, poderosa, transformadora, ciente da riqueza cultural do homem e das potencialidades que o domínio da expressividade encerra. Essa é nossa provável cura, nossa eterna procura.