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Estardalhaços

Fas-Ce Paiaçu Santarém: Um olhar numa carta.

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Nos dias 21, 22 e 23 de fevereiro, ocorreu o Fas-Ce Paiaçu Santarém, um misto de debates, oficinas e vivências em arte, palhaçaria e saúde, com espaços facilitados por nossos artecientistas Bruno Passos e Vitor Nina. Foi um encontro rico de trocas e da descoberta de novos amigos e parceiros de sonho e de lutas! Desorganizando para reorganizar, é preciso investir nas redes de promoção e restauração da saúde através da arte e este foi um encontro importante!

Muito obrigado a todos que organizaram e participaram deste encontro e um até breve! Logo a gente volta, metendo o nariz onde nem é chamado: quem mandou dar bola pra paiaço?

Amasa Carvalho, estudante de psicologia participante do espaço, divide conosco seus olhares sobre o encontro numa bela carta repleta de poesia.

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No cartaz estava escrito claramente tudo o que os analfabetos emocionais não conseguem ler:

– Não se trata de doença, e sim de saúde e perdão.

– Aceita tua coluna torta!

– Aceita tua barriga redondinha!

– Aceita ser feliz, pelo menos uma vez, e mergulha em tuas lembranças sem medo. Estou aqui segurando sua mão.

E foi assim que eles vieram até nós.

Talvez nunca saibam a operação que fizeram em nossas almas, talvez não sentiram o medo da moça atrapalhada que não sabia dançar, talvez não ouviram o gigante abobalhado que não sabia dançar. Mas, com certeza, ouviram o clamor dos espíritos velhos que, quase mortos, procuravam a chama de fogos de artifício no olhar. E por isso gritaram!

-Abram seus olhos e vejam!

E vimos.

Ondas que dão fluidez no fluxo de energia corporal.

Explosões de nuvens e pipas que brincam sozinhas na enorme janela daquele hospital de almas.

Corações famintos por tudo que faça sangrar de verdade e que seja verdade.

Médicos que olham com doçura o teu olhar e veem o que poucos jalecos brancos fascistas conseguem ver.

A filosofia, a ética, o respeito ao corpo, ao meu corpo, ao teu corpo e às nossas máscaras.

– Estou falando besteira?

– Estou sendo ridículo?

– Minha perna é torta!

– Ah! Isso não importa!

Porque vocês, leitores, não estavam lá, mas nós estávamos e vimos a hora que o espetáculo começou.

Em plena praça pública, rituais de xamãs e evocação de índios velhos se fizeram presentes.

E vocês ali, sentindo pulsar aqui dentro, os tambores que vieram dos terreiros de candomblé lá do Maranhão.

Curas de almas perdidas, envenenadas a céu aberto, independentes dos poderes desse mundo.

Foi quando o velho, desdentado à própria sorte, pegou a folha daquela árvore que você passa por ela todo dia, mas nunca a viu e tocou um bolero lindamente.

Sim! Um bolero!

A índia mendiga, perdida, cantora, pôde receber a benção e os aplausos do público, ao invés de pedras e olhares de repúdio e exclusão.

O paralítico solitário pôde casar-se pela primeira vez e ouvir palavras de amor, como nunca antes ouvira.

O poeta transeunte que trazia seus escritos enrolados em um saco plástico para a chuva não molhar, deu voz e vez ao seu deus.

As crianças que brincavam de bola pararam e sentiram a energia da trupe brotar como água em plena praça profana.

-Sim! Eles vieram!

E, no fundo, todos os brincantes entenderam o que o velho insano evocava em seu tambor:

– Chame!

– Chame!

– Chame!

– Venha!

– Venha!

– Venha!

E eles vieram.

E eles estavam lá.

E eles estavam aqui.

Não de branco, com nariz empinado, falando termos técnicos próprios da medicina só pra mostrar que sabem mais.

Não!

O nariz deles era vermelho, o suspensório azul e o tênis marrom. Falaram de saúde e ética em nossa língua e ouviram o nosso Tupi com o respeito que tem os homens bons.

Talvez nunca saibam o que a estrela de sua bondade fez em nossas vidas despedaçadas, em nossos palhaços desconhecidos e nossos “eus” tão distantes de nós.

Afinal, explicar aqui com palavras faladas e escritas tão pobres, frente a grandeza do AMOR ao próximo e o respeito à Ética  à Dignidade das manifestações que exemplificaram, é difícil. Mas não para palhaços.

Que nossos Xamãs estejam contigo.

Que as águas reconfortantes daquele igarapé banhem sua tristeza, se um dia ela vier.

E que aquela lua que saiu por dentro das árvores, tão perto e tão forte que mais parecia um poste, transporte teus caminhos e teus corações ao brilho que só a eles pertencem.

E que um dia possamos novamente nos encontrar no picadeiro do grande circo da vida, para cirandar e convidar o mundo a olhar com olhos de crianças, o que tão poucos conseguem ver: a beleza da vida.

Para os médicos da alma,

Amasa

Santarém, 24 de fevereiro de 2013


Retrospectiva Trupe da Pro.Cura 2012- Em imagens

Confira mais fotos em:

Oficinas2012-4087
Oficinas2012-1532

Memórias da Madrugada no Hospício

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Por Vitor Nina

Durante a última semana, tive o privilégio de retornar ao Hotel da Loucura, quilombo de tantas descobertas e lutas importantes. Revi amigos, pude presenciar progressos clínicos evidentes que ocorreram após o início desta ocupação, em julho, e também presenciei violências e práticas que figuram entre as piores que o ser humano pode produzir: negação da liberdade, castração da identidade, agressão física. Nada que possa sequer se relacionar com uma instituição que só é validada por um preceito de de cuidado e de cura. É preocupante que esses princípios sejam relegados a segundo plano, pois é apenas nisso que um manicômio poderia se diferir de um campo de concentração. 

De fato, o segundo andar do Instituto Nise da Silveira, o Hotel da Loucura, é um quilombo instituido em plena senzala, pois uma parte importante desse hospital ainda perpetua práticas alienistas anacrônicas, que só produzem doença. Sigamos lutando e dançando, há muito o que construir, nossa alegria é revolucionária! Evoé! 

Seguem aqui algumas imagens e anotações que consegui produzir durante minha estadia em Engenho de Dentro:

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I

                Já é madrugada no Hotel da Loucura, este quilombo assentado no segundo andar de uma senzala municipal. O sofrimento passeia no escuro, está na umidade das paredes, no peso das portas metálicas. É trazido por sons que vêm de longe, que trazem gemidos, sonhos e lamentos. O prédio é grande o suficiente para abafar todo tipo de grito. O sofrimento máximo não ocupa espaço algum. Pode habitar na sala de estar sem incomodar os convidados. Ornamenta galerias de arte, prisões e hospitais como este em que hoje tento dormir.

II

                Não há sono justo no reino dos fármacos psicotrópicos. Esses grilhões são os mesmos dos homens e mulheres escravizados em nossa nação e sua tradição de pelourinhos, genocídios e fracassos de coletividade. Também a criação alegre que surge entre as grades ainda é o mesmo batuque de resistência, pulso de um povo em eterna hemorragia. Sangue vermelho, negro, índio, cor de flora e cor de fauna, sangrando garrafadas de raízes, sangrando memória, sangrando os primeiros deuses, jamais esquecidos mesmo quando proibidos. Camisa-de-força na pele, coração dançando no peito: a natureza-ou-deus é livre, a humanidade é um imperativo.

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III

                Um guaicuru orgulhoso cavalga na noite do hospício. Desfila seu cavalo nas enfermarias, faz tocaia nas camas, guerreando por identidade, defendendo trechos de mata virgem em mentes fragmentadas pelas capitanias hereditárias. Engenho de Dentro, tuas pílulas são teu açúcar. Querem tornar os deuses dóceis, quanta loucura. A doçura destas pílulas é apenas para quem delas não prova.

IV

                A doida se deitou na escada. Tem uns cinquenta anos, é preta e gorda, está fedendo e chora como criança, muito embora sua voz grave confira um tom demoníaco aos gritos. Pouco importa que não tenha vários dentes, se está no setor errado do hospital. Pouco importa que vista trapos, ela está no setor errado do hospital. Ninguém escuta seu grito de pavor da bruxa que habita sua cama, ela está no setor errado. Para todo delírio, um sedativo. Pouco importa que tenha seu corpo puxado pelo braço e que ela arraste pelo chão, já é fim de expediente e ela está no setor errado do hospital. Para toda alucinação, uma cura, mesmo que física. Pouco importa sua urina no chão, a baba que escorre das tentativas inúteis de mordida, já é fim de expediente, é preciso arrumar o hospital. Pouco importa seu vestido rasgado no chão, seu sexo exposto, mama e genitália, corpo e espírito desabados no chão, pouco importa sua vontade. Bruxas não existem.

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V

                Aquele homem nu, apesar da jaula, insiste em seu passeio sob o sol. Sua nudez é uma parede sem cal, seu corpo desbunda o mundo, perna fina e bunda seca, ele está como veio ao mundo, bom dia, meu caro, bom dia! Em plena madrugada eu te vejo, impedindo meu sono, expondo a minha nudez e minhas grades: bom dia! Estamos todos nus sob as paixões e apesar da razão! Nestes muros só há mofo e limo, o concreto já está rachado! Evoé, tu és Dionísio também, assim como eu, nós todos, e não há imperfeição na natureza! Cabeça, falo, membros e mente em coro: evoé! A alegria nos libertará a todos, no manicômio das ruas, na prisão do corpo, na madrugada das mentes! O sol em teu corpo é meu quilombo: evoé, camarada! Evoé, irmão! O outro é teu vinho, e o carnaval virá quando o dia nascer de fato! Evoé!

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VI

Ouvindo os gritos de evoé, Márcia, que não fala e tem dificuldades para se movimentar, foi dançar com a onça maracaiá. Suas mãos passearam pelo corpo do animal, lentamente, com espanto e alegria, como se descobrisse naquela sobra de alegoria de escola de samba uma nova forma de divindade. Aquela onça era-sem-ser o mistério feito em matéria, e Márcia brinca no espaço entre Deus e o carnaval.  Após abraçar o bicho, ela beija sua pata dianteira, agradecendo a dança, e o mundo é criado de novo, de uma forma que não sei dizer, nem quero. Lá, no espaço entre as coisas e o pensamento, a palavra cansa, enlouquece. Lá só nos resta a dança, matriarca de todas as verdades. Evoé!


CICLO DE OFICINAS: VAGAS PREENCHIDAS. INSCREVA-SE NA LISTA DE ESPERA.

Infelizmente, nossas inscrições para as oficinas e vivências já excedem o número de vagas que ofertamos- de fato, tentamos ampliar o número de vagas ofertadas mas, mesmo este, já foi preenchido.

No entanto, queremos quanta gente for possível em nosso caldeirão de cultura e saúde! Assim, disponibilizamos inscrições para a lista de espera- no caso de alguma desistência, ofertaremos a vaga àqueles que se inscreveram na lista de espera!

Independente das oficinas, venha conhecer nosso trabalho! Acompanhe o blog e a Trupe pelo facebook, para ficar por dentro dos estardalhaços que provocamos por aí!

 

PENSE COM O NARIZ!


ABERTAS AS INSCRIÇÕES PARA O CICLO DE OFICINAS

ESTÃO ABERTAS AS INSCRIÇÕES PARA O CICLO DE OFICINAS DA TRUPE DA PROCURA 2012 !
Oficinas e Vivências de formação básica em brincação de rua e palhaçaria de hospital

As inscrições são completamente gratuitas e estarão abertas até o dia 30/09. As oficinas acontecem a partir do dia 21/10. Vagas Limitadas!

INSCREVA-SE AQUI: https://blogdatrupe.wordpress.com/inscricao-para-ciclo-de-oficinas/

VISTA SEU NARIZ. INVENTE SUA CURA.

Maiores informações:
Email: trupedaprocura@hotmail.com
Facebook: https://www.facebook.com/trupe.daprocura


Festa Para Humanos

Nota do Editor: Nos dias 8 e 9 de agosto, a Trupe foi convidada a participar de evento da Coordenação de Humanização do Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza. Este é o relato poético-dramático da intervenção que o grupo realizou no evento. Aliás, o relato não fala disso não: é exposição dramatúrgica dos símbolos e da voz de tudo que não cabia na palestra, coffe-break, cerimônia! Ou não? Um texto-quimera, trazendo de volta o mesmo enigma que nos é tão antigo e pertinente: mas que é o homem? 

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Por Vitória Cordovil

PERSONAGENS

Mãos, colaboradoras da ciranda.

Afeto, segurança do evento.

Pés, assistente do desfile.

Olhos, receptores das informações visuais (óbvio!)

Humanos, convidados da festa.

Lábios, amigo dos Humanos.

Cidadão-Ator, um dos pais da Trupe da Pro.Cura.

Trupe da Pro.Cura, criança peralta de 3 anos.

ÉPOCA: Agosto e Sempre.

LUGAR DA CENA: Centro de Excelência em Eficiência Energética da Amazônia (CEAMAZON), UFPA.

ATO PRIMEIRO: Dar boas vindas aos ilustríssimos convidados, os humanos.

Auditório do CEAMAZON. Assentos confortáveis, novinhos em folha; centrais de ar cheirando a leite e com temperaturas glaciais nunca dantes presenciadas fora daquele recinto. Cortinas à esquerda. Mesa, potes com biscoitos e garrafas térmicas com café bem passado. Ao centro, a porta principal.

É dia.

 

CENA I

Trupe, Pés, Afeto, Mãos e Lábios.

Trupe:

Olá, senhorita! Bom dia! Vossas majestades já tomaram café hoje?

Mãos:

Já tomamos sim, mas aceitamos mais! (Risos)

 

(Narrador)

Como quem desenrolasse um rolo de papel higiênico até o chão, Trupe se encurvava diante de cada par de Pés e Mãos e Olhos que ali chegavam. Sem contar com Lábios, que de cerrado nada tinha.

Trupe, falando com Lábios:

Pera lá, vou já buscar um cafezinho com biscoitos para você, mas antes… Alguém limpou a cadeira para vossa excelência acomodar seu corpo? E massagem, já lhe ofereceram hoje? O chão! Pelo amor de Deus, vamos limpar o chão e jogar o tapete vermelho para vossos ilustríssimos passarem!!

 

Pés, deslizando no tapete vermelho de cor invisível:

To me sentindo um Prínspice! Quem me dera ter isso todo dia!

 

Mãos e Lábios juntos, querendo poupar sorrisos.

 

Mãos, Lábios e Trupe sentados, à espera dos Humanos. Afeto permitia a entrada de todos no auditório.

Termina a Cena I.

CENA II

Todos e Nenhum. Só o Narrador Onipresente discorre sobre a festa.

(Narrador)

Conteúdos acerca da humanização foram relatados ao longo do encontro. A pequena e curiosa Trupe chegou a indagar sobre a Cachorrização, Gatização e mesmo a tão fofa Elefantização. Mas não obteve respostas. Só tinham Humanos por lá. Humanos aprendendo a serem humanos. Interessante, não?!

Vez ou outra, entre uns Olhos e Pés, Trupe se levantava da cadeira e tentava ler alguma coisa. E não foi que a pequena conseguiu?! Foi aí que Ray Lima, Drummond e Ferreira Gullar – opa! Ferreira Gullar só chegou com um dos pais dela, o Cidadão-Ator –. Continuando, foi aí que Ray Lima e Drummond fizeram parte desta bela festa, regada a cafezinho e biscoitinho com gosto de nada. Digo, nata. Era de nata mesmo!

De repente – tchan tchan tchan tchaaaan! – Eis que surge o Cidadão-Ator! Sério que nem se sente e parecendo gente, com Ferreira Gullar em suas mãos. Todos os presentes se inquietaram e se alegraram, não somente com sua chegada, mas parecia ali que ele completava o que a pequenina Trupe estava fazendo desde o início do evento. Ele ainda trouxe Gullar para gullarizar algumas questões que ali estavam sendo ditas por Lábios.

Afeto faz a ronda, não deixando escapar Lábios sorridentes nem Olhos atentos. Não fala se Humanos deixaram-no de lado, mas agradece para cada convidado quando se sente visto e respeitado. Afinal, nos dias de hoje, pouco temos confiado na segurança do Afeto, não acham?

Por fim, de acordo com Humanos e colaboradores (2012), precisamos de mais Pés, Mãos, Olhos e Lábios para a tal da Humanização. Não nos basta lábias nem palmas, muito menos olhares, apenas. Precisamos de Pés com Olhos, Afeto, Mãos e Lábios; de Olhos, com Pés, Afeto, Mãos e Lábios. Precisamos de Humanos e Afeto, nas mais variadas situações de nossas vidas.

O Cidadão-Ator sai de cena.

Termina a Cena II.

ATO SEGUNDO E ÚLTIMO: Festa D’addio.

Hall do CEAMAZON. Amplo para cirandas. Isso basta.

É meio-dia.

CENA III

Todos.

Uma ciranda é formada por Mãos, Olhos, Pés, Lábios, Humanos, Trupe e Afeto.

O trecho do poema de Ray Lima é cantarolado por todos:

 

Desde o dia em que nasci,

Logo aprendi algo assim:

Cuidar do outro é cuidar de mim,

Cuidar do outro é cuidar de mim.

Cuidar de mim é cuidar do mundo,

Cuidar do mundo é cuidar de mim.

Mãos se unem para os aplausos.

 

Termina a Cena III.

Cenas outras e atos virão, estão vindo, com Humanos e Afeto.

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Vitória Cordovil faz parte de nosso projeto de palhaço-terapia com a palhaça Bisbi. Também é estudante da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Pará e membro do NARIS- Núcleo de Artes Como Instrumento de Saúde. Esta iniciativa faz parte do projeto de estímulo à produção literária, onde buscamos uma outra forma de registro e transmissão de nossas lutas pela saúde através da arte. Por uma nova medicina, alegre, poderosa, transformadora, ciente da riqueza cultural do homem e das potencialidades que o domínio da expressividade encerra. Essa é nossa provável cura, nossa eterna procura.


Laboratório de Arte Ciência!