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Especial UPAC

Odacir Preto Velho

Por Bruno Passos

Rio de Janeiro/RJ

Odacir é o cantor. Com sua postura grande e serena ele respira sempre profunda e lentamente, de onde ganha ar pra cantar durante horas. Está sempre disposto a sentar numa roda (que não deixa de ser uma ciranda mais calma) e papear, ouvir e contar histórias numa espécie de cenopoesia brincada ali, onde os corpos são pequenos em aparência, mas não em sensação. Cantando, Odacir engendra mandalas de som e corpos humanos em sua legítima “manifestação do inconsciente e busca da reorganização da psique” como descreveu Nise. Mas será Poeise ou Poesia? Com certeza não é um anagrama. A psique se re-harmoniza através da representação da sua própria essência, na poiética eterna de nossas células destruindo-se e criando-se onde o mensageiro pode ser químico ou simbólico.

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As primeiras memórias que tenho do Ocupa Nise em 2012 me pintam imagens queridas, dentre elas a primeira vez que vi Odacir, estava sentado numa posição de cansaço, com a respiração pesada e parecia sonolento, abria os olhos devagar de quando em quando pra se manter na roda. Era um samba que os músicos tocavam e aquela cena que se construía era nossa primeira dentro do hotel da loucura, nossas mochilas ainda estavam no canto da sala.

Vi quando Odacir levantou a mão e pediu pra cantar, e quando começou a roda inteira ficou admirada e sorridente, tinha uma voz rouca dessas de cantar bonitos sambas, era feita pra ele.  E durante muito tempo víamos o cantor fazer seu show, nesses prazerosos momentos para ouvintes, dançantes e pra ele mesmo, Odacir trazia expressão no rosto, normalmente seu rosto era neutro como uma máscara. Um tempo depois descobri que ele era frequentemente impregnado com medicamentos.

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O cantor que encontrei no Ocupa Nise 2014 me fez reviver essas imagens. Ele estava com a s palavras soltas a sair da boca, e com os dentes brancos que os negros ganham quando nascem sempre à mostra. O tempo inteiro pessoas sozinhas ou em grupos chegavam na gira com Odacir Preto Velho, um ritual de cura manifestado pelo inconsciente daquele ser humano que era gente ainda. Naquela roda, o som que saia daquele peito preto era ritmado pelo som do tambor, o tambor de dentro que quando toca vibra vivo o corpo e entende calma a alma. E tudo é novamente criado, tudo mais uma vez creado. Manifesta-se a essência, transformando uma existência noutra existência.

Nesses dias de setembro Odacir vestiu seu corpo xamânico e curou, a si e muito de nós que ouvimos ele cantar, contar histórias, fazer brincadeiras. Fui escolhido pra mais uma breve manifestação desse curador. Estava prestes a voltar pra casa no meu último dia no Hotel da Loucura, vivia a verdadeira polifonia de sentimentos que Vera Dantas um dia me falou, no meio dessa experiência Dantesca cheguei perto de Odacir que estava deitado sozinho em uma esteira no chão e perguntei:

 – E ai meu querido, que achastes do Ocupa Nise esse ano? – no que ele me respondeu:

– Foi muito bom, conheci muita gente de muitos lugares, muita gente diferente – então eu disse:

– É, pena que acabou, agora vai começar a ir todo mundo embora.

– Mas é assim mesmo, agora é esperar o ano que vem quando vai vir mais gente, e outros tipos de gente, e assim vamos conhecendo todos os tipos de gente, essa é a vida

Nesse ponto me calei, abracei minhas malas voltei pra casa.

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O texto acima faz parte das experiências do NARIS durante o Ocupa Nise 2014, evento ocorrido de 1 a 7 de setembro no Instituto Municipal Nise da Silveira, Bairro do Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. O terceiro e quarto andares do prédio principal do Instituto abrigam hoje o Hotel da Loucura, sede permanente da Universidade Popular de Arte e Ciência, em uma ocupação cultural onde atores, músicos, médicos, clientes ainda internados por lá trabalham diariamente a cura coletiva e individual através da arte e suas potencialidades  simbólicas de comunicação e de reorientação dos processos culturais da saúde. O evento desse ano também congregou o IV Congresso da UPAC e o XV Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, nesse burburinho, artistas e profissionais da saúde de quase todos os estados do Brasil e de alguns países (Colômbia, México, Inglaterra, França, Argentina) provaram mais uma vez que a Emoção do Lidar relatada por Nise é a saída para uma saúde que cure de verdade todos os dias.


Os Jalecos Coloridos

Convergence, Jackson Pollock, 1952

Texto de Vitor Nina, sob mote de Junio Santos

Para Letícia Nunes

Fui internado naquela hora em que a escuridão é tão escura que até o chão adormece e a gente tropeça na gente. Por isso falo com propriedade, porque vi de perto quando eles surgiram, e todo dia desde então, foi assim: antes mesmo do primeiro fio de luz de sol ensolarar o hospital, lá estão eles, os jalecos brancos, brancos, da cor alva e celeste dos lírios, das claras de ovo. Os jalecos brancos, de tão brancos, estão sempre despertos e em prontidão; o olho eternamente aberto, tal qual folha de papel, de tão lúcido, mal permite entrever a cor da íris. Os jalecos brancos não desconfiam, sabem. Não há dúvidas, está tudo claro, forte, limpo, como o leite desnatado, pasteurizado; não há dúvidas sobre o leite e sua coalha, as vacas todas foram plenamente estudadas em estudos multicêntricos randomizados, e hoje são brancas, branquinhas, tal qual são as vacas e galinhas dos comerciais de TV. Ou os jalecos brancos. É um alvejante poderoso, a razão, puro cloro e protocolo, água sanitária tão pura que é quase benta, trazida pela mão zelosa dos jalecos brancos, branquinha feito hóstia, feito pipoca de cinema. A cabeça do jaleco branco é reta até onde a vista alcança, está saneada, branca do branco mais puro, e até quando chora, são olhos d’água sanitária. Os jalecos brancos trazem o dia, vinte e quatro horas por dia, sem descanso, sem curvas, sem noites e sem dias.

O que os jalecos brancos não desconfiam é que, mal terminam seu breve protocolo interminável, logo a boca da noite abre o seu sorriso de estrelas, e dá uma gargalhada imensa, e do som que cai delas vêm me visitar os jalecos coloridos, coloridos, coloridos por artes noturnas e ciências de sol, os jalecos coloridos brincam comigo de braços abertos, giram no ar anunciando suas equações… Daqui de onde vejo, parecem um arco-íris cirandando, e anunciam, “toda sombra engendra uma comédia, eis o tombo do mundo!”. Daí fazem cara de bobo e tropeçam na minha cama, derramando luz por toda enfermaria, fazendo cosquinha com a pontinha das estrelas e quando alguém ameaça morrer de rir, eles anunciam, “de cada broto de riso brota uma flor!”, e ouvindo isso eu já nem penso em velório, penso é em casamento, olho a vida vestida de noiva e, no fim da cauda de seu véu…

Os jalecos coloridos sabem ficar daquela cor que têm as mãos depois de bater palmas, dos olhos quando avermelham, uns têm cor de pulo de menino, outros cor de lembrança de velhinho… Um dia, ao ver os olhos de água e sal da senhora do leito 54, gritaram como quem grita eureca: “a memória é uma lama de oceanos!”. Os jalecos coloridos têm cor de tudo, até de burro quando foge, e mesmo cor de jaleco branco. Mas tropeçam em tudo e sua ciência sai toda aquarelada, e eles ainda justificam com a cara mais limpa e colorida do mundo: “A humanidade é prosa, mas o homem é de versos!”. E o hospital de enfermos estremece com tanta gente dando riso solto e riso frouxo, e os jalecos se empolgam e até se fingem de poetas, “ouvir-se para não olvir-se” eles recitam, com um olhar apaixonado para a lua e algumas lágrimas de crocodilo, “o abismo só está com sono, as estrelas são o habitat da noite!”, vão repetindo com voz de locutor de rádio enquanto atravessam a madrugada até trombarem na alvorada.

Os jalecos coloridos estão todos sujos de gente, em sua higiene de caleidoscópios. E sua cor permanece conosco, nos olhos da boca e nos ouvidos da língua. Em pleno meio dia na enfermaria de enfermos, ainda ecoa sua voz a raciocinar alucinada que “a pipoca é a pérola do milho!”, que “a borboleta é uma folha rebelde!” e que “toda janela é um poço de visões!”. Ainda por cima são metidos a esfinge, “devora-me pra que me decifres”, e pouco a pouco a gente começa a descobrir… Um dia o leito 47 gritou de súbito: “as nuvens são as copas, e os raios são seus galhos”, ao que outro número respondeu, “Então os ventos são raízes!”, “o canto do passarinho é o seu fruto!”, diz um algarismo e outro responde, “cantar junto é um suco de sons!”, quase num algoritmo.

O que ninguém ainda percebeu, tampouco podem os jalecos brancos inferir, é que os jalecos coloridos não surgiram de estrelas espatifadas, como ainda é o boato que corre entre os enfermos mais imaginativos, mas já estavam aqui e, de fato, já estávamos vestidos com eles antes mesmo da internação. Talvez tenham nos internado justamente por vesti-los. Talvez as estrelas tenham surgido na gente, do atrito entre o ferro e o oxigênio, que faiscavam ao atravessar a gordura das células, o que explicaria o vermelho, o azul, o sangue, a íris, o intestino e o sonhar, e o porquê deles possuírem a mesma natureza e brotarem como crescem os cabelos, as unhas e os sorrisos.

De fato, se a gente reparar bem, nota-se que em cada leito de enfermo há uma pessoa e que dela emana algo dessa cor sem nome, deste traje sem panos, desta respiração profunda de cura. É notável, ancestral e belo e, portanto, em nome da ciência, anuncio aos jalecos brancos: Vossas senhorias estão em delírio febril, pois seus corpos e vestes convulsionam sem dançar. O pano caiu, patognomônico de que não há pano nem parede. Vossas senhorias, aí, de pé, estão deitadas no leito de enfermos, e em seus jalecos brancos só há luz exangue. Ouçam a voz daquelas cores, “o abraço é uma camisa que dá força!”. Nós, os internados, flutuamos com  o hospital, fizemos do hospital um balão de hélio, nós espocamos o hospital. Nós, os enfermos, flutuamos sobre vocês, vestidos das cores de nós mesmos, porque tudo é onde tudo é são.


Memórias da Madrugada no Hospício

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Por Vitor Nina

Durante a última semana, tive o privilégio de retornar ao Hotel da Loucura, quilombo de tantas descobertas e lutas importantes. Revi amigos, pude presenciar progressos clínicos evidentes que ocorreram após o início desta ocupação, em julho, e também presenciei violências e práticas que figuram entre as piores que o ser humano pode produzir: negação da liberdade, castração da identidade, agressão física. Nada que possa sequer se relacionar com uma instituição que só é validada por um preceito de de cuidado e de cura. É preocupante que esses princípios sejam relegados a segundo plano, pois é apenas nisso que um manicômio poderia se diferir de um campo de concentração. 

De fato, o segundo andar do Instituto Nise da Silveira, o Hotel da Loucura, é um quilombo instituido em plena senzala, pois uma parte importante desse hospital ainda perpetua práticas alienistas anacrônicas, que só produzem doença. Sigamos lutando e dançando, há muito o que construir, nossa alegria é revolucionária! Evoé! 

Seguem aqui algumas imagens e anotações que consegui produzir durante minha estadia em Engenho de Dentro:

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I

                Já é madrugada no Hotel da Loucura, este quilombo assentado no segundo andar de uma senzala municipal. O sofrimento passeia no escuro, está na umidade das paredes, no peso das portas metálicas. É trazido por sons que vêm de longe, que trazem gemidos, sonhos e lamentos. O prédio é grande o suficiente para abafar todo tipo de grito. O sofrimento máximo não ocupa espaço algum. Pode habitar na sala de estar sem incomodar os convidados. Ornamenta galerias de arte, prisões e hospitais como este em que hoje tento dormir.

II

                Não há sono justo no reino dos fármacos psicotrópicos. Esses grilhões são os mesmos dos homens e mulheres escravizados em nossa nação e sua tradição de pelourinhos, genocídios e fracassos de coletividade. Também a criação alegre que surge entre as grades ainda é o mesmo batuque de resistência, pulso de um povo em eterna hemorragia. Sangue vermelho, negro, índio, cor de flora e cor de fauna, sangrando garrafadas de raízes, sangrando memória, sangrando os primeiros deuses, jamais esquecidos mesmo quando proibidos. Camisa-de-força na pele, coração dançando no peito: a natureza-ou-deus é livre, a humanidade é um imperativo.

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III

                Um guaicuru orgulhoso cavalga na noite do hospício. Desfila seu cavalo nas enfermarias, faz tocaia nas camas, guerreando por identidade, defendendo trechos de mata virgem em mentes fragmentadas pelas capitanias hereditárias. Engenho de Dentro, tuas pílulas são teu açúcar. Querem tornar os deuses dóceis, quanta loucura. A doçura destas pílulas é apenas para quem delas não prova.

IV

                A doida se deitou na escada. Tem uns cinquenta anos, é preta e gorda, está fedendo e chora como criança, muito embora sua voz grave confira um tom demoníaco aos gritos. Pouco importa que não tenha vários dentes, se está no setor errado do hospital. Pouco importa que vista trapos, ela está no setor errado do hospital. Ninguém escuta seu grito de pavor da bruxa que habita sua cama, ela está no setor errado. Para todo delírio, um sedativo. Pouco importa que tenha seu corpo puxado pelo braço e que ela arraste pelo chão, já é fim de expediente e ela está no setor errado do hospital. Para toda alucinação, uma cura, mesmo que física. Pouco importa sua urina no chão, a baba que escorre das tentativas inúteis de mordida, já é fim de expediente, é preciso arrumar o hospital. Pouco importa seu vestido rasgado no chão, seu sexo exposto, mama e genitália, corpo e espírito desabados no chão, pouco importa sua vontade. Bruxas não existem.

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V

                Aquele homem nu, apesar da jaula, insiste em seu passeio sob o sol. Sua nudez é uma parede sem cal, seu corpo desbunda o mundo, perna fina e bunda seca, ele está como veio ao mundo, bom dia, meu caro, bom dia! Em plena madrugada eu te vejo, impedindo meu sono, expondo a minha nudez e minhas grades: bom dia! Estamos todos nus sob as paixões e apesar da razão! Nestes muros só há mofo e limo, o concreto já está rachado! Evoé, tu és Dionísio também, assim como eu, nós todos, e não há imperfeição na natureza! Cabeça, falo, membros e mente em coro: evoé! A alegria nos libertará a todos, no manicômio das ruas, na prisão do corpo, na madrugada das mentes! O sol em teu corpo é meu quilombo: evoé, camarada! Evoé, irmão! O outro é teu vinho, e o carnaval virá quando o dia nascer de fato! Evoé!

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VI

Ouvindo os gritos de evoé, Márcia, que não fala e tem dificuldades para se movimentar, foi dançar com a onça maracaiá. Suas mãos passearam pelo corpo do animal, lentamente, com espanto e alegria, como se descobrisse naquela sobra de alegoria de escola de samba uma nova forma de divindade. Aquela onça era-sem-ser o mistério feito em matéria, e Márcia brinca no espaço entre Deus e o carnaval.  Após abraçar o bicho, ela beija sua pata dianteira, agradecendo a dança, e o mundo é criado de novo, de uma forma que não sei dizer, nem quero. Lá, no espaço entre as coisas e o pensamento, a palavra cansa, enlouquece. Lá só nos resta a dança, matriarca de todas as verdades. Evoé!


Que de Humano Tenho Eu?

Por Bruno Passos

Que de humano tenho eu?
Se minhas fronteiras confundem-se com meu ego
Talvez homem, talvez menino, talvez mulher
Que de humano tenho eu?
Húmus da terra de onde vim ou carapuça que ganhei quando cheguei?

Meu menino não entende os homens e mulheres
Que de humano tenho eu?
Homem virtuoso, cego, surdo e mudo,
Falhas curáveis sem messias
Procurei tanto em mim
Aquele que vem de lá talvez traga a resposta

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Depois de tantas mudanças, novas descobertas e algumas perguntas a mais angariadas durante o Ocupa Nise chegou a hora de saber o que será daqui pra frente, mesmo sem me desvencilhar da vontade quase mastigadora de simplesmente retomar a vida de Hotel da Loucura, me proponho, de forma audaciosa ou até mesmo irresponsável, a dar continuidade ao que vivemos e aprendemos durante aqueles milagrosos e inesquecíveis dias. Como vestir o nariz e ser o mesmo palhaço de sempre depois de depois de ouvir as histórias/aulas de Junio Santos? Como não cantarolar aos ventos (e às pessoas claro) as cantigas de Ray Lima? E quando bater a fome, onde vão estar Miriam e suas empadas? Quem vai nos surpreender com músicas cantadas de surpresa na hora certa se Pelézinho, Rogerinha e Wagner estão longe? E quando a música começar quem dançará se Tati escancara seu sorriso em outro lugar? E quando tudo ficar fora do lugar de onde Judite gritará ordem? Meu Deus cadê o Davy pra fotografar tudo isso!? Amanhã é hora de entrar em cena de novo! Que os mestres brincantes que conheci no Hotel da Loucura me iluminem!


São e Salvo

Primeiras impressões após as vivências no Hotel da Loucura

Por Vitor Nina

São e salvo estou de volta a minha casa após uma longa estadia no Hotel da Loucura. Acho que só retornei mesmo esta manhã, quando finalmente vesti o jaleco branco de todos os dias e retomei a rotina de trabalhos e estudos no hospital. O jaleco pesou nos meus ombros, já não estava mais acostumado com este tipo de figurino e, francamente, depois do que pude viver no Instituto Nise da Silveira, acho que algumas lantejoulas lhe cairiam muito bem.

A primeira impressão é esta: tudo parece estar revolvido neste hospital que conheço há anos. É como quando agitamos um formigueiro: nossos movimentos humanos,  as paixões e os tropeços saltaram de baixo da terra e sou uma formiga que pode ver a si mesmo, em corredores apinhados de gente, todos juntos buscando uma doçura instintiva, mas presos a uma hierarquia violenta, à cegueira de pinças que é a lei deste reino, como de tantos outros.

Afinal, o hospital nada mais é que teatro de rua! O espaço é público, aqui estão todos: o feirante, o brincante, o cientista, o louco, o corrupto. Meu figurino poderia ter mais cores, alguns retalhos. E uma peruca, quem sabe. Mas por certo, precisamos aqui em nosso hospital de um Reginaldo, que possa ser Judite e Naná ao mesmo tempo, com a naturalidade, graça e elegância das santíssimas trindades. Um rei que abraçasse a loucura para nos elucidar, e gritasse “Evoé!”, para que respondêssemos em coro “Evoé!”. Que nos ensinasse uma ética tão simples quanto verdadeira, como comer o quanto quiséssemos, mas não levar para casa.

Um rei que conhecesse a lógica dos maltrapilhos, que habitasse o hospital há décadas e que o chamasse de lar não de forma abstrata, mas real, mesmo que imposta. Que tivesse o corpo mutilado, que tivesse aprendido a sorrir mesmo sem dentes contra o punho fechado daqueles que só lhe deram prescrições sedativas e restrições à liberdade. Um rei que tivesse aprendido o Amor no hospital, e pudesse nos conduzir de volta ao Amar. Nós, que fomos saneados, que estamos sãos e salvos à custa da lobotomia de Dionísio.


Engenho de Dentro Pra Fora 1

ENGENHO DE DENTRO PRA FORA:

Experiências e Poéticas no Hotel da Loucura

Esta série de textos relatará a experiência de três dos artecientistas do NARIS em sua hospedagem no Hotel da Loucura. Bruno Brabo, Bruno Passos e Vitor Nina estão neste momento no Rio de Janeiro, em Engenho de Dentro, no Hospital Psiquiátrico Dom Pedro II, no Ocupa Nise, uma ocupação permanente de um dos andares do hospital. Lá, estão reunidos poetas, curadores, educadores populares, clientes do hospital e quem mais quiser entrar, numa experiência científica e num manifesto artístico por novas concepções de saúde. Este projeto é realizado pela Universidade Popular de Arte e Ciência e pelo Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde do Rio de Janeiro. Acompanhe os textos pelo blog.

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Por Vitor Nina

Já faz quase uma semana que estou hospedado no Hotel da Loucura. Escrevo de uma antiga sala de prescrições médicas, hoje transformada em biblioteca. Baruch de Spinoza, Nise da Silveira, Humberto Maturana, Antonin Artaud e outros nos fazem companhia. As cores nas paredes são fortes, um amarelo girassol, roxo e azul que dialogam, que gritam e recitam. Flores naturais, flores pintadas, panos floridos, mandalas, escritos pela parede. O colorido surreal das instalações salta sobre o espírito, espalha segredos entre os sentidos de todos. Nas paredes as manifestações de inúmeros visitantes deste abrigo de lúcidos. Tem-se a impressão de que, a qualquer momento, tudo explodirá em labaredas de luz e gente. E é, de fato, o que acontece.

Enquanto escrevo, Pelezinho, morador e artista de rua, joga damas ao meu lado, e sonha cantar na rádio. É compositor, poeta, crooner, jogador de embaixadinhas, cozinheiro, showman, xamã. É um dos que habitam esta casa de homens e mulheres, de crianças e animais, de deuses e maltrapilhos. A casa é nossa, e é familiar a todos, porque ao atravessarmos a porta onde se lê “Entra e sai perguntando”, não entramos apenas na ocupação física, que resiste à impunidade das violências legalizadas com purpurina e carnaval. Ao passarmos pelo saguão de recepção da loucura, entramos no Homem, e essa é nossa morada eterna. A verdade é que sempre estivemos neste hotel, e nunca o deixaremos. Estas paredes apenas revelam as paredes de nosso espírito, os moldes da psique. Não à toa tantos arquétipos nos devoram o tempo inteiro: o bico de um pássaro pintado sob a janela, o amor escrito em uma mandala perpétua, a dança imanente revelada nos batuques, os demônios e os anjos que superaram as diferenças mesquinhas e hoje são apenas natureza.

Considero este meu ritual de passagem para a arte da cura. Em breve serei médico, terei diploma, terei código e carimbarei doenças. Meu Deus, a medicina moderna é uma doença venérea. É egolatria das gônadas, sem nenhum Eros, não dança nem conhece Dionísio. E ri-se a plenos pulmões do que desconhece, com seu pau murcho e suas costas arqueadas. Aqui, entre os loucos, aprendo Amor, aqui sou aprendiz dos xamãs e dos poetas, aqui faço ciência, cada vez mais alucinado pela plenitude dos mistérios. Este assombro tem o conforto de um abraço, é um alívio poder desconhecer e suspirar deslumbrado: meu Deus!

Aqui não há rei, e Deus está nu. Aliás, Deus convulsiona, Deus mora na rua e faz embaixadinha, Deus usa crack e quer parar, Deus está amarrado em sua cama e grita a noite inteira querendo sair, Deus foi internado há trinta anos, Deus não tem uma perna, Deus usa peruca para poder ser Três e Um ao mesmo tempo, Deus fuma e dá esculacho, Deus invade mansão de rico, Deus sabe uns poemas que recita de cor, Deus dá cantada na morena, Deus dá cantada na loirinha, Deus é doçura e dor, escravidão e açúcar de Engenho de Dentro. E, sobretudo, Deus dança, Deus dança o tempo inteiro, dentro e fora do hospital, cirandando, dentro e fora do corpo, cirandando, Deus dança e se revela tão simples que dá susto, e depois faz gargalhar gostoso.

                “Eu tinha uns 70 anos, hoje devo ter uns 40, mas dizem que tenho 26”. Rogerinha dá um sorriso magro e na minha cabeça floresce novo canavial. Meu Engenho de Dentro canta seus cantos de liberdade: “levanta, povo, cativeiro se acabou…”


Especial NCCS 2: Medicina Popular Decantada em Cordel

Esta é a segunda parte do especial sobre o Núcleo de Cultura Ciência e Saúde e sobre a Universidade Popular de Arte e Ciência, que são grandes exemplos de aplicação prática da arte na transformação verdadeira da saúde, da recondução do homem à sua condição de humano. O trabalho destes artecientistas do Rio de Janeiro serve de modelo  para o que conduzimos no NARIS e na Trupe da Pro-cura, e há muito o que aprender com o que esta pesquisa tem a dizer e com o que sua força dionisíaca nos permite apreender para além do campo da razão. É necessário dançar e amar também, só assim chegaremos ao homem.

Durante as próximas semanas, serão publicados alguns textos acerca dos princípios teóricos, das experiências e da beleza que está sendo fomentada em Engenho de Dentro e nas praças públicas por estes saltimbancos e seus sonhos-planos tão inéditos quanto viáveis. Esta série de publicações é um  convite para conhecer melhor este trabalho, é um convite para dançar, e uma preparação anímica para o II Congresso da Universidade Popular de Arte e Ciência, que ocorrerá em julho, no Rio de Janeiro.

Alquimia subversiva convertendo ouro em nosso pétreo peito! Deixe-se transformar em carne novamente, porque tudo é carnaval e tudo tem ânima! Confira e sinta-se livre para vir dançar conosco! Evoé!

MEDICINA POPULAR DECANTADA EM CORDEL

(Literatura de Cordel)

Autor: Zé Antônio

Digitação e acesso ao texto: Letícia Nunes

Sou poeta Cordelista

Sou repórter, menestrel,

Cientista, engenheiro,

Advogado, bedel

Para poder educar

Medicina Popular

Vou versar neste cordel.

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