Bem-vindo ao blog da Trupe da Pro-cura!

Crônica do Corredor

11401267_10206308165038103_6351238152589703894_nEntre leitos, portas e corredores silenciosos de um hospital público, um pequeno território de alegria e trapalhada se expandia. Em um quarto de descanso daquele mesmo hospital, dois palhaços acordavam de um cochilo breve. Eram sapatos, narizes, meia coloridas, um tutu laranja e um cachecol, se desarranjando juntamente a sons de aquecimento e escalas sonoras. Esse preparo precedia uma surpresa de um domingo de manhã.

Do outro lado da porta, uma ala pediátrica. Crianças internadas por dias, pais claramente abatidos. Não parecia que a presença do palhaço era o que ajudaria no que eles precisavam: saúde. Então eles levantaram a bandeira de expansão, apareceram na primeira enfermaria. Nenhuma piada, alguns tropeços e um turbilhão de ideias.
Aqueles palhaços cheios de humanidade, dois corações pulsando, usando o ridículo como especialidade, mostravam que o ambiente do hospital, com todo o jugo de angustia, criava possibilidade de passagem a algo que aquelas pessoas precisavam, mas talvez não tivessem lembrado: o riso.
Então como num mergulho de 50 metros, um salto de imaginação ecoa em som! Aquela sala se torna um parque aquático, uma poça vira piscina, acesso venoso vira raio congelante, uma enfermeira se torna funcionária e uma fábrica de chocolate é o que mantém todas aquelas crianças no quarto. Mudando o foco da dor, mas não esquecendo dela.
A cruzada continuava e como uma epidemia, o corredor transmitia som, luz e ação. O corredor era a passarela da alegria, a expectativa e o riso inevitável já estavam na porta dos quartos antes mesmo de um palhaço entrar. Agora não só as crianças, mas pais e mães, funcionários estavam na ciranda! Por vezes descontando uma frustração amorosa e até criando o roteiro em que o palhaço se tornava um detalhe, porque a contaminação havia acontecido.
E assim foram fotos e filmagens dos palhaços, cenas de TV, salão de beleza com corte, lavagem e penteado, dançinhas, pedido de noivado, casamento de palhaço com madre fazendo a cerimônia e daminha trazendo aliança. A brincadeira não tinha espaço pra acabar, mas na saída pra lua de mel, uma pai chama a filha: “Dá um abraço no palhaço. Bate foto com ele”. “Eu já vou embora amanhã, palhaço. Como vou te ver de novo?”. E chora.
Dois palhaços cheios de humanidade, agora vários corações pulsando com eles. Inclusive o meu.

4Layser Gama é palhaça, atriz de rua e professora.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s